Na noite desta segunda-feira (10), 46 vilhenenses de baixa renda – a maioria deles idosos – embarcaram para a cidade boliviana de Guayramerín, a 1005 km de Vilhena.  Desde fevereiro deste ano, todos os meses um ônibus parte da Associação de Moradores do Setor 6 em busca de atendimento médico na área oftalmológica feito pelo projeto “Operación Milagro”, como parte de um convênio entre os governos de Cuba e Bolívia.

Até agora, 226 pessoas já enfrentaram 16 horas da viagem de ônibus para se submeterem às cirurgias de catarata e pterígio. As intervenções são feitas por médicos cubanos, sem nenhum custo para os pacientes. No Brasil, uma cirurgia de catarata custa enttre R$ 4 e R$ 8 mil.

Cada vilhenense que viaja para a Bolívia paga apenas os R$ 160 pela passagem de ônibus fretado pela associação e mais as despesas com o hotel e o restaurante em Guajará-Mirim, cidade brasileira que faz divisa com a Bolívia.  

O site www.folhadosulonline.com.br esteve no local de embarque dos vilhenenses e falou com vários deles. O aposentado Natal Antônio Rosegini, 77 anos, por exemplo, estava voltando a Bolívia apenas uma observção. Ele se submeteu à cirurgia de catarata há dois meses. “Ganhei outra vida, depois de lutar por mais de cinco meses no Brasil em busca de atendimento gratuito, sem sucesso”, afirmou o idoso, que recebeu inclusive medicamentos gratuitos na Bolívia.

Silvestre Signorini, 63 anos, também sofreu uma intervenção em um dos olhos e estava voltando, agora para operar o outro. “Foi um sucesso e o atendimento na Bolívia é de primeira”, dizia entusiasmado.  

O presidente da Associação de Moradrores Ricardo Ferreira do Nascimento (FOTO 4), 43 anos, já organizou oito destas excursões para a Bolívia.  “Eu mesmo me submeti a uma cirurgia de pterígio e fiquei 100% bom”, contou Ricardo.  

 As cirurgias e receituários médicos ocorrem no Hospital de Base do município boliviano. São18 médicos cubanos que atendem. Nenhum procedimento que requeira internação é feito no local. Todos os exames e as cirurgias ocorrem num prazo de 48 horas, no próprio hospital, e os pacientes são liberados em seguida. Depois de 60 dias, eles retornam para avaliar o quadro clínico.

Apesar de não serem reconhecidos em solo brasileiro pelo Conselho Regional de Medicina (CRM), os médicos cubanos atendem os vilhenenses com o apoio do poder público. O deputado estadual Luizinho Goebel (PV) custeou a primeira viagem dos vilhenenses a Bolívia. Já o prefeito Zé Rover (PP) cede uma enfermeira para assistir os doentes durante a viagem.  

POLÊMICA – A ida de vilhenenses a Bolívia em busca de atendimento médico tem causado polêmica. Em Vilhena, atuam quatro médicos especialistas em oftalmologia. Nenhum deles atende pelo SUS (Sistema Único de Saúde), dificultando o acesso de pessoas de baixo poder aquisitivo às suas clínicas particulares.

O site www.folhadosulonline.com.br publicou uma matéria, em 29 de junho, com a versão do médico  oftalmologista Marco Túlio Teodoro, que manifesta preocupação sobre a situação de pacientes da região que têm sido operados na Bolívia.

De acordo com Marco Túlio, as cirurgias colocam a saúde visual dos pacientes em risco. “Os médicos são cubanos e de outros países aqui da América do Sul formados em Cuba, onde a medicina está atrasada há 50 anos”, afirma, com contundência.

Segundo o médico vilhenense, relatos de pacientes informam que não é feita a esterilização adequada do instrumental cirúrgico. O método adotado - com incisão - também estaria ultrapassado, uma vez que atualmente a cirurgia de catarata é feita através de laser.  

Marco Túlio trouxe à redação do site  um recorte do jornal “Diário de Cuiabá” com reportagem sobre um quadro parecido ao de Guayaramerín. A matéria, com o título “Tragédia em Mato Grosso”, mostra que San Mathias, a 80 km da cidade mato-grossense de Cáceres, recebe – assim como Guyaramerin - , milhares de pacientes brasileiros com problemas nos olhos. De acordo com a matéria, num “hospital acanhado e sem estrutura”, os médicos realizam cirurgias complexas e os resultados têm sido nefastos: uma série de infecções e a perda de visão de pelo menos uma paciente já foram constatados.

O PRESIDENTE DO CONSELHO BRASILEIRO DE OFTALMOLOGIA (CBO), HAMILTON MOREIRA, CONDENA AS OPERAÇÕES NA BOLÍVIA – Moreira afirmou ser \"lamentável\" o que está acontecendo com as pessoas que estão procurando atendimento médico na Bolívia. Quatro pessoas de Cáceres (MT) chegaram a ficar cegas por causa de uma infecção grave. Segundo matéria do Diário de Cuiabá, foi preciso retirar o globo ocular dos pacientes e, no lugar, colocar uma prótese, depois que se submeteram a cirurgias feitas por médicos formados em Cuba.  

 

O presidente da CBO afirmou que a prática - operar num país vizinho - é uma forma de burlar a autonomia das autoridades brasileiras e criticou a atitude das pessoas que apóiam este tipo de ação, "dirigentes e lideranças políticas que se preocupam apenas com a promoção pessoal".