ENTREVISTA:
PATRICIA PAZ SILVA GIORDANI - RONDONIENSE FINALISTA DO PREMIO DA ONU
Em entrevista concedida a Agência Studio Press, a vilhenense Patrícia Paz Silva Giordani, fala de sua vida, sua empresa e de como está lidando com a fama. Ela foi ganhadora do prêmio nacional do Sebrae Mulher de Negócio e é finalista do Prêmio Internacional Mulheres no Negócio, promovido pela ONU. Patrícia foi reconhecida por propor medidas ecológicas para a coleta, o transporte e o tratamento final de cargas perigosas. Ela é a gestora da empresa Moura e Paz Soluções Ambientais.
Studio Press - Como recebeu a notícia que está entre as 10 finalistas, de todo o mundo, da grande premiação sobre idéias inovadoras na área de negócios, promoção da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento- Unctad?
Patrícia Paz - Estava pesquisando sobre ecologia na internet e entrei no site www.ecodesenvolvimento.org, quando ouvi a notícia, através da repórter Mônica Villela Grayley, direto da Radio ONU de Nova York. Foi um momento de grande emoção, chorei muito e foi um choro de agradecimento a Deus por este grande reconhecimento mundial.
SP - É desafiador incorporar práticas socialmente responsáveis em um negócio comercial. Quais foram os seus maiores desafios neste sentido?
P. Paz - A população do Brasil com tantas belezas e recursos naturais existentes já deveria estar muito mais atenta quanto à degradação ambiental. O maior desafio foi conscientizar os geradores de resíduos da tamanha importância em destinar corretamente seus resíduos através de empresas com tecnologias ambientalmente responsáveis. O valor pago pelo tratamento dos resíduos pelas empresas geradoras é insignificante comparando-se com o triste cenário em que se encontra o nosso planeta. Na questão comercial enfrentamos uma crise muito grande no primeiro ano da empresa, pois não tínhamos nenhum cliente por conta da polêmica gerada na nossa cidade, a ponto de, dos 7 funcionários que iniciaram conosco, 2 pediram para sair devido à falta de serviço na empresa.
SP - Você deixou uma carreira de sucesso na área de odontologia, dirigindo clínicas consideradas como referências, para ingressar em um negócio que mexe com soluções voltadas a identificar e minimizar os impactos ambientais através do transporte de cargas perigosas. Sofreu preconceito? Como lidou com esta mudança?
P. Paz - Houve muito preconceito. As pessoas não entendiam como uma profissional renomada, com 20 anos atuando na Odontologia poderia deixar uma profissão que já estava consolidada para ingressar em uma área desconhecida, que trabalha com resíduos perigosos, houve grande rejeição inclusive da classe odontológica, por várias vezes tínhamos que nos explicar em órgãos estaduais e municipais qual era o nosso propósito com a empresa.
SP - Quais os principais impactos que teve com a mudança no perfil do seu negócio?
P. Paz - O maior impacto foi na questão conhecimento. Eu estava fazendo uma especialização em Implantodontia e juntamente tive que partir para uma especialização na Área Ambiental. A busca de informações a respeito do empreendimento foi papel extremamente importante em todo o processo. Na clínica o meu público-alvo era a comunidade da cidade e adjacências, hoje o nosso público-alvo envolve Regiões, Estados, desde clientes de micro e pequeno porte como também de grandes empresas.
SP - Quando iniciou seu negócio qual era sua estrutura. Quanto tempo está no mercado e qual foi o crescimento? Fale sobre o estágio anterior e atual.
P. Paz - No início tínhamos poucos recursos, fomos buscar uma pequena parte em instituições bancárias, através do FNO, no Banco da Amazônia (Basa) de Vilhena. Conseguimos comprar uma área com um descritivo dentro das normas ambientais, construímos uma estrutura modesta que atende totalmente as normativas. Compramos sistema térmico de tratamento de resíduos, dois veículos coletores pequenos. No início eram sete funcionários, logo depois ficaram somente cinco, incluindo os do escritório e os vigias. A venda de uma das clínicas e de alguns terrenos que tínhamos favoreceu os investimentos na empresa.
A empresa está no mercado à apenas dois anos. No primeiro ano não tínhamos nenhum cliente, nenhum incentivo motivacional de pessoas, nem de empresas públicas ou privadas para continuarmos gerindo o negócio, mas nunca pensei em desistir - persisti muito no meu projeto. O crescimento ocorreu após eu ter buscado clientes no Estado do Mato Grosso, onde a consciência ambiental está um pouco mais apurada. Logo a Prefeitura de Vilhena fez a licitação e algumas outras prefeituras e empresas particulares começaram a ver a importância do nosso trabalho. Hoje estamos com mais de 600 clientes, mais dois veículos coletores, de maior porte, 24 funcionários e ampliamos a estrutura física operacional da empresa. Fui premiada com o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios em junho/11 em Brasília onde deu maior visibilidade nacional à empresa, fortalecendo a credibilidade juntamente com nossos clientes.
SP - Na final da premiação da Unctad consta que há mulheres de países latinoamericanos, asiáticos e africanos incluindo Equador, Uganda e Vietnã. Você tem noção do que representa a possibilidade de compartilhamento com universos diferenciados de empreendedoras? O que mais te encanta nisso tudo?
P. Paz - O que mais me encanta e me traz muita alegria é o nascimento de uma nova fase, onde mulheres do mundo todo estão deixando aflorar o que já existia e estava adormecido: a visão empreendedora, a opinião própria, a negociação, a liderança. Desde 1930 já existiam grandes empreendedoras como podemos citar, a fundadora da BPW Dra Lena Madesin Phillips. Com suas idéias de inovação e empreendedorismo fundou tão importante federação para ajuda mútua às mulheres e profissionais. O compartilhamento com estes universos vai enriquecer infinitamente o meu negócio e de tantas outras mulheres.
SP - Recentemente você conquistou a etapa nacional do Prêmio SEBRAE Mulher de Negócios, na categoria micro e pequenas empresas, o que esta premiação significou para seu negócio?
P. Paz - O Prêmio Sebrae Mulher de Negócios é o que poderia acontecer de mais valioso em questão da ampliação da rede de relacionamentos comerciais, intercâmbio com outros estados e até países com a missão internacional, convites para palestras, rodadas de negócios, cursos, seminários entre outros. Sou extremamente agradecida ao Sebrae pelo convite em participar deste Prêmio e indico para que mulheres que tenham seus negócios participem também nos próximos anos.
SP - Ao conquistar o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios você ganhou uma viagem à Itália, quando pode compartilhar, em missão internacional, acompanhada do Sebrae Nacional, BPW Brasil e FNQ, com outras experiências de negócios em Roma e Milão. O que trouxe de novo em sua bagagem?
P. Paz - Eu trouxe muita coisa boa. As visitas institucionais nas Câmaras do Comércio de Roma e Milão, a visita a BPW Itália, em centros comerciais, em empresa italianas. Foram experiências sem igual. O convite para a feira em Sorrento para o ano que vem, através das BPW Itália e BPW Brasil, pelas Presidentes Italiana e Brasileira, é a maior expectativa para 2012. Várias propostas de negócios surgiram através desta viagem. Agora tenho que planejar o futuro, calcular bem os riscos, buscar mais excelência em gestão através da FNQ e Sebrae para novos desafios.
SP - Você está sendo convidada para novos desafios, inclusive em nível de representatividade política partidária e de organizações da sociedade civil. A exemplo de vereadora, prefeita da cidade e de ser uma das protagonistas da fundação da Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais – BPW Rondônia. Como você tem processado todas estas novas informações? O que realmente pretende abraçar, além do seu negócio?
P. Paz - A princípio quero fortalecer mais ainda o meu próprio negócio, instituindo práticas modernas de gestão, finalizar os processos de implantação do SGI, em seguida fundar a BPW VILHENA para que amigas e companheiras que batalham em seus negócios tenham na BPW um ponto forte de apoio às suas empresas. Quanto à questão política acredito que está um pouco longe dos meus planos, apesar dos convites. Não concordo com cargos políticos, concordo com gerenciamento, com verdadeira administração, com implantação de tecnologias públicas, com o aproveitamento de pessoal especializado, buscando sempre premiar os talentos, dar empregos a pessoas otimistas, que tenham harmonia na missão de seus departamentos, verdadeiros líderes de suas equipes. Sinceramente, infelizmente a política que conhecemos hoje está muito longe dos meus sonhos!
SP - Qual a mensagem que você gostaria de deixar para as mulheres brasileiras, que empreendem, que sonham empreender e ainda as que só cuidam dos afazeres domésticos?
P. Paz - Gostaria de dizer que a mulher já nasce administradora, ela administra tantos itens no seu lar, possui uma gama enorme de características positivas com um grande potencial. Aquelas que já se descobriram como empreendedoras estão de parabéns porque os desafios são enormes e elas venceram, foram vitoriosas. Me sinto um tanto quanto representante destas mulheres tão fortes, tão lutadoras.
E aquelas que têm seus sonhos, procurem exteriorizá-los através da busca, de complementos para sua realização, que não fiquem apenas em sonhos, que tornem realidade. Façam valer as suas vontades, briguem, lutem por aquilo que acham certo. Na verdade, acredito em estilos de vida, e o estilo da empreendedora é sempre com a visão no futuro objetivando sempre um mundo melhor!
SP - Fale sobre seu perfil. Formação, especializações. Se é casada, quantos filhos e como concilia a vida profissional, empresarial a pessoal.
P. Paz - Como toda empreendedora sempre gostei de olhar mais na frente, de estudar, de prestar obediência. Eu era tão comportada na escola que uma vez, aos 7 anos de idade a professora pediu que eu aguardasse-a na porta da sala de aula no horário do recreio. Ela ficou me espionando de longe e eu fiquei lá durante todo o período que teria para brincar, ela pedia para que outras crianças chamassem-me para brincar. No outro dia, ela ligou para meus pais e pediu para que eles fossem até a escola que teria um assunto preocupante para passar. Meus pais foram e ela disse que eu deveria ter algum problema mental, pois não era normal o meu comportamento. Meus pais muito inteligentes e seguros apenas disseram: “Professora, com todo o respeito, a senhora não está acostumada com disciplina, a nossa filha é uma criança normal e damos uma criação de obediência, disciplina e respeito, fique tranqüila”.
Sempre pratiquei esportes, joguei por muitos anos na Seleção de Voleibol do Estado de Rondônia e também quando ingressei na Faculdade de Odontologia (UNOESTE), em Presidente Prudente, participei dos jogos universitários. Tenho a especialização em Gestão, Auditoria e Perícia Ambiental além de ter terminado a especialização em Implantodontia. Mas, por motivo de viagem, não foi possível apresentar a monografia.
Pretendo voltar ao esporte assim que o momento for mais propício. Sou casada tenho dois filhos, 13 anos (menina) e 12 anos (menino) que procuram compreender as várias horas de ausência devido as minhas atividades laborais - sempre que posso tento recompensá-los. Tive sorte quanto ao esposo que só vem a somar, quanto às crianças e à empresa. Ele é o Diretor Comercial da empresa e desenvolve com muita competência esta questão. Em relação à questão social senti bastante quando tive que me afastar um pouco dos amigos, porque o foco era a empresa, e ainda é a empresa que me toma muito tempo. Afinal, é o meu sonho se concretizando!