Pescarias, muitos causos e encontros com a vida selvagem. É o que mostrou o programa “Terra da Gente”, exibido pela EPTV, afiliada da Rede Globo na região de Campinas (SP). A aventura foi na floresta Amazônica, na fronteira do Brasil com a Bolívia. Os repórteres do programa chegaram à região do município de Cabixi, e exploram o Rio Guaporé e seus afluentes. Na primeira parte da viagem, mostraram o convívio dos moradores ribeirinhos com os bichos da floresta e descobriram que os "vizinhos" selvagens são tratados com muito carinho. Na hora de ir pescar, os aventureiros usaram uma tática infalível, à moda caipira, com vara leve e minhoca de isca. E não deu outra. Na ponta da linha, variedade de piaus e até a matrinchãs. Os pescadores foram atrás dos Cacharas e também não perderam viagem. Mas o melhor aconteceu na frente da câmera do “Terra da Gente”. Você teria coragem de tirar da toca uma Sucuri de 4 metros no braço?
Os dois lados
O verde. A vida. Fauna e flora em harmonia. Os pequenos insetos. Aos bichos maiores. Aves. Répteis. Anfíbios. Mamíferos. Moradores da floresta Amazônica na fronteira entre Brasil e Bolívia.
Estamos em Cabixi, estado de Rondônia. O desmatamento no lado brasileiro se revela preocupante. E contrasta com o que se vê no território boliviano, protegido por um parque nacional.
Em alguns trechos, o avanço inconsequente do progresso chegou até a margem do rio. São fazendas e áreas transformadas em moradias. Casas e ranchos que substituíram a mata ciliar.
Do mato para o asfalto. Isso foi no fim dos anos oitenta. Época em que Rinaldo Valdecir Domeraski, nosso guia, veio do Paraná atrás de uma nova perspectiva de vida. E segundo ele quando chegou a Cabixi, era comum encontrar todo tipo de bicho, onça, anta, capivara, cateto, porcão.
O sobe e desce de barcos mostra uma nova realidade no rio Guaporé. E deixa no ar uma pergunta. Até que ponto o homem deve interferir no equilíbrio do meio ambiente para satisfazer as próprias vontades?
Quando avança sobre a mata para ocupar espaço até mesmo nas margens dos rios, o homem pensa no progresso e no próprio bem estar sem se preocupar com as consequências para o habitat dos bichos.
Quase em família
Às vezes é preciso gastar horas de barco para chegar aos locais mais selvagens, onde é maior a chance de um encontro com a vida selvagem.
macaco-de-cheiro se estica todo para pegar algo pra comer. É uma aula de equilíbrio. E de agilidade também. Ele se alimenta de frutos e sementes e parece insaciável.
Outro macaco encontrado na região de Cabixi é o parauacu, também conhecido como acari ou macaco-cabeludo.
Esta espécie nunca tinha sido registrada pelo Terra da Gente em ambiente selvagem. Logo no primeiro encontro, flagramos o bicho no meio de uma refeição.
A região tem duas estações bem definidas. No período da chuva, os moradores têm que deixar as casas. Quando vem a vazante, a realidade muda completamente.
No período em que o rio está baixo, a agitação aumenta por aqui. As casas passam a ser observatórios privilegiados da natureza.
Olha só quem chegou por aqui. Um casal e dois filhotes de mutum. Espécie de ave ameaçada de extinção. Hamílton Pereira de Souza, caseiro conta que eles não vão muito longe, estão acostumados.
Se voltam, é graças ao seu Hamílton. Que trata os mutuns como se fossem filhos. Já virou rotina. De manhã cedo e no fim da tarde, lá está ele, com a quirera para os bichinhos. Um banquete todo dia.
Essa relação de amor começou de forma inesperada. Depois de um resgate que salvou a vida dos filhotes de mutum. Seu Hamílton foi herói naquele dia.
Mas nem sempre foi assim. Quando chegou no rio como pescador profissional ele costumava matar os mutuns para se alimentar.
Nunca é tarde para se redimir. A atitude do ex-caçador mudou depois que ele foi picado por uma cobra. Foi ai que começou a pensar na vida e em suas atitudes.
“Daquele dia em diante eu comecei a pensar se eu estava judiando dos bichos. Talvez esse foi um exemplo pra eu não caçar”, declarou.
Fronteira abençoada
Nem é preciso descrever esta alvorada. Ela dá as boas vindas para um dia de pescaria. João Assis dos Santos, nosso guia de pesca, também é conhecido como Quati.
Um desbravador deste rincão distante do país, pescador nato. Partimos rio acima.
Quase uma hora de navegação, chegamos a parte mais selvagem do Guaporé. Não poderia haver melhores condições para uma pescaria.
Nossa opção é por uma tralha leve. A isca é minhoca, boa pra vários peixes. Quati explicou que vamos conseguir pegar o piau-três-pintas, pacu e a matrinchã. E quem sabe dá o piauçu.
Mas viemos preparados para variar a isca. Dessa forma aumentam nossas chances na pescaria. Quati ceva pra atrair mais peixes com quirela de milho.
Daí, conseguimos um piau flamengo, mais com a isca de soja.
Pesca vai e vem e Quati aproveita pra contar histórias de pescador. Entre uma história e outra, aparece mais peixe na linha. Uma piranha-caju, de tão pequena, parecia isca. Aumenta a variedade, sai um pacu. Pra quebrar um pouco a rotina, a equipe é surpreendida por uma família de ariranhas. A poucos metros do barco. É a vantagem de estar num lugar selvagem.
Mais uma parada em outro ponto de pesca. Os pescadores deixaram a soja e voltaram a usar a minhoca como isca. E a estratégia dá certo, uma matrinchã na ponta da linha.
Peixe de couro
Um novo dia de pescaria. Depois de curvas e mais curvas, nossa equipe chega a um dos afluentes do Guaporé, o rio Piolho. Por ser estreito, a impressão é de entrar num túnel verde.
O objetivo hoje é a cachara, peixe de couro que aqui costuma ser pescado na margem, próximo aos aguapés.
Ao contrário de outros peixes de couro, encontrados mais no fundo, o pescador não precisa esperar por muito tempo para fisgar uma cachara. Se o peixe não bater em cinco, dez minutos, o melhor é procurar outro ponto.
E a manhã passa desse jeito: saindo de um ponto para outro. São muitos arremessos e a cachara aparece. Não é das grandes, mas a briga é das boas!
O rio mais parece um berçário de cachara. E logo sai outra cachara bonita e brigadora na ponta da linha.
Partimos para outro afluente do rio Guaporé, o Cabixi. Esse rio divide dois estados: do lado esquerdo é Rondônia, do lado direito, Mato Grosso. Logo no início da pescaria uma surpresa: um mandubé, também conhecido como palmito. Uma pescaria de variedades!
Um grande predador
Nossa equipe vive agora uma das histórias do guia “Quati” ao vivo. O pantaneiro encontra uma sucuri amoitadinha.
Ela comeu algum bicho ou estava dormindo, com movimento de barco começou a sair da loca.
Quati segura a cabeça da sucuri e faz um esforço danado. A cobra está com a maior parte do corpo enterrado.
O que impressiona e assusta é o tamanho, quatro metros.
A sucuri tem capacidade de engolir um animal de 30 kg, 40 kg.
As maiores chegam aos nove metros de comprimento.
Uma cobra dessas, quando atinge a idade adulta, pode ter de 20 a 40 filhotes, por ninhada.
A sucuri ganha a liberdade. Para a equipe, fica a certeza de que este lugar tão distante, na fronteira entre Brasil e Bolívia, tem um tesouro vivo guardado no meio da floresta. E merece ser conservado.