O médico pediatra Luiz Antonio Dionello (FOTO), do Hospital Regional de Vilhena, recebeu há poucos dias um relato emocionante sobre a tragédia no Haiti, enviado via internet pela médica militar Daniela Gil, que trabalha na missão brasileira naquele país. A mensagem foi recebida por meio de outra amiga em comum, a Dra. Maria Alix, também médica.

Daniela Gil é ginecologista-obstetra, formada pela Escola Superior de Saúde do Exércio (Essex), no Rio Grande do Sul, e interrompeu seu mestrado para engajar-se na Força de Paz do Brasil no Haiti.

 Ela produziu um depoimento vivo, dramático, que narra os dias que se seguiram ao terremoto que matou mais de 100.000 pessoas e destruiu o que ainda restava de civilização no país mais pobre das Américas.

 Historicamente assolado por tempestades, furacões e, principalmnte, governos corruptos, como os de François “Papa Doc” Duvalier e Jean-Bernarde Aristide, herdados do passado colonial, o Haiti dividiu por pelo menos dois séculos com a atual República Dominicana (São Domingos) o território da famosa “Ilha Hispaniola”, formidável produtora de cana-de-acúcar, especiaria que a transformou numa das mais ricas colônicas da França no Caribe – um pedaço de terra menor que Rondônia, fincado em meio ao Atlântico, e que, ironicamente, acabou se degenerando até chegar ao fundo do poço da miséria absoluta para ali tragado pela força do sismo de 12 de janeiro

Daniela Gil permanece ajudando as vítimas do Haiti, mas suas palavras ecoam no Brasil, via sua rede de amigos, e agora, com exclusividade, no www.folhadosulonline.com.br:

 

De: daniella gil <daniellagil@hotmail.com>
Assunto: [cfosaude2007]
Para:
Data: Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010, 8:52

   
Queridos familiares e amigos,


Desculpem-me pela demora em mandar-lhes noticias. Estou em falta com vocês. Somente ontem consegui um tempo para acessar a net. As coisas aqui estão corridas. Desde o terremoto, os atendimentos não param. 

Como médica, vim para o Haiti para realizar um sonho. Foram sete meses de muito trabalho, em que tinha total consciência de ter minha missão cumprida. Estava plenamente realizada. Minha volta estava marcada para o dia 29 e já preparava minhas malas.

Estava no consultório quando, de repente, um tremor. Saimos correndo dos containers, eu e meus colegas da missão, mas, naquele momento, não poderíamos imaginar o tamanho do estrago.

Logo chegaram dois militares da base com machucados leves e cheguei a pensar que aquilo seria tudo, até que a guarda anunciou a chegada de civis haitianos. Nao esqueço a cena.

Apesar de acostumada com os hospitais públicos brasileiros, nunca vi nada igual. Cena de filme, filme de guerra. Mas este filme era real e eu fazia parte dele.

Criancas e adultos gravemente feridos. Corpos carregados. Vidas se esvaindo. Em pouco tempo, a área da enfermaria ficou repleta de colchões com feridos. Os civis chegavam continuamente. O espaçoo tornava-se pequeno para tanta gente. E os profissionais de saúde, embora estivessem dando o máximo de si, já não eram numericamente suficientes. 

Felizmente, a tragédia nos uniu e assisti a uma bela demonstração de humanidade, altruísmo e força. Juntamente com a equipe de saúde, militares com funções das mais diversas encaravam  o desafio de salvar vidas.

Durante toda a noite e varando a madrugada, nossa equipe trabalhou heroicamente. Apesar dos poucos recursos que tínnamos, sabíamos que aquele era o melhor atendimento que os haitianos poderiam receber.

A cidade estava destroçada. Hospitais em ruínas. Multidões desabrigadas. Familias destruídas. Enfim, nosso pouco tonara-se muito em meio ao caos. Enquanto tentávamos salvar vidas, recebíamos notícias dos militares brasileiros mortos e feridos em missão. A perplexidade e a dor eram enormes, mas não tivemos tempo de chorar nossos mortos. Era preciso cuidar de quem ainda tinha chance de sobreviver. Era preciso escolher pela vida.

E a vida verdadeiramente surgiu de repente. Chamaram-me para examinar uma gestante em trabalho de parto. Apesar de não termos estrutura para eventuais complicações do parto, não havia opção. Ela não estava ferida. Estava com medo. Daria a luz a seu segundo filho em meio aos escombros. E, na madrugada após o terremoto, que aconteceu no fim da tarde, nasceu uma pequena menina. Foi um parto lindo, inesquecível. Daniella: assim foi chamada a menina que seria símbolo de esperança para toda uma tropa. Foi uma linda e emocionante homenagem que nunca esquecerei.

Os dias se seguiram num ritmo alucinante. O tempo passava rapidamente. Não havia tempo a perder. Era preciso continuar a luta. E, cada vez que pintava um desânimo, uma dor, Deus mandava uma “barrigudinha” para me animar. No total, foram três partos normais em meio ao caos. Três meninas. Três símbolos de esperança e luz. Duas receberam meu nome, Daniella. Uma recebeu o carinhoso apelido de Lulu em homenagem a Sgt. Lucimar, verdadeira guerreira,  que me auxiliou em todos os momentos.

A luta continua. Ainda temos muito a fazer por esta terra tão sofrida. E temos muito a aprender com o povo haitiano sobre superação e força. Apesar de tão sofrido, este povo tem uma enorme capacidade de se reerguer. 

Acredito ser possível surgir dos escombros um Haiti melhor. Preciso acreditar.

Agradeço a todos pelo carinho. Recebi inúmeras mensagens de familiares e amigos. Não escrevi para ninguém em particular. Não neste momento. Mas, cada um de vocês está aqui comigo. Em meu coração! Em meus pensamentos! Amo vocês!

Rezem pelos que se foram e pelos que permaneceram. Que a forca de Deus seja sentida por cada um de nos.


Com amor, Dani Gil


Port-au-Prince, capital do Haiti, 19 de Janeiro de 2010