Com a modernização do sistema de documentação de veículos e motoristas pelos departamentos de trânsito de todo o país, imaginava-se que, enfim, o usuário seria prioridade. Só se imaginava. Pelo menos na 6ª Circunscrição de Trânsito de Vilhena (CIRETRAN), essa prioridade não é observada. Há uma verdadeira concorrência entre o simples usuário e os despachantes das autoescolas que abarrotam a maior circunscrição de trânsito do Sul do Estado. E quem perde, de goleada é o usuário.
Documentar um carro, fazer uma transferência, um emplacamento, uma carteira de habilitação, ou qualquer outro procedimento poderia consumir do usuário pouco mais de hora não fosse à concorrência desleal que travam com os despachantes. Fato sobejamente conhecido pela direção do órgão na cidade. É raro o usuário iniciar um procedimento ainda pela manhã, às 08 horas quando a CIRETRAN abre, até o fim do expediente, às 14 horas. Por incrível que parece, às vezes só consegue com uma “forcinha” de um ou outro despachante camarada, como confeccionar uma placa depois das 14:00h e repassar pela cerca do imóvel que abriga o órgão.
Não é difícil entender porque o usuário é sempre vítima do sistema. Três classes atuam por ali: o cidadão comum, também identificado como usuário, que abdica de seus afazeres, um ou dois dias de trabalho para ficar quites com a documentação de seu veículo ou sua CNH. Os despachantes, profissionais que atuam pelas autoescolas, que cobram entre R$ 50 a R$ 100 reais para realizar a mão de obra da burocracia infernal da máquina pública que é legalizar veículos e motoristas. São conhecedores de toda a sistemática da engrenagem que movimenta diariamente centenas de documentos. A maioria, até por força do ofício, são bastante próximos de uma terceira classe do sistema: os servidores públicos que atuam n unidade. Solícitos, os despachantes trafegam com desenvoltura pelo órgão, anexam documentos, grampeiam papéis, auxiliam na vistoria e, para algum desavisado pode até parecer que são servidores da própria CIRETRAN, tal o grau de naturalidade COM que desfilam pelos intramuros do prédio.
Como conhecem toda a rotina do sistema, chegam cedo, apanham as senhas e, abarrotados de documentos, tomam para si a maior parte da mão de obra pública. Não é raro presenciar de três a quatro despachantes de uma mesma autoescola zanzando pelo órgão. Enquanto um se apossa da senha da vistoria, outro já se ocupa da senha do atendimento, ora de CNH, ora dos serviços para veículos, os mais concorridos. Como também não é raro ver quase que o dia inteiro toda a bancada de servidores, tanto do setor de CNH e veículos e de vistoria completamente tomada por despachantes. Quase todo o expediente. Enquanto isso, o cidadão comum fica diligentemente sentado aguardando ser atendido. Quando muito, consegue ao término do expediente. Não raro também tem que voltar no outro dia para terminar o serviço. Se não quiser sofrer o atropelo, o cidadão obrigatoriamente tem que se submeter ao serviço dos despachantes. “Eles tomam conta das senhas e o usuário é prejudicado”, relatou uma servidora do órgão.
Por incrível que possa parecer, ainda assim usuários de outros municípios da região vêm a Vilhena para ser atendido, segundo eles pelo fato de a regional ser aqui e, com isso, a documentação pode ser agilizada. Isso criou outro tipo de “cliente” madrugador, igual aquele das filas de escolas para rematrícula e dos postos de saúde para o requerimento de fichas de atendimento: o usuário do CIRETRAN. Na última segunda-feira dois usuários relataram que chegaram às 04 horas e 05 horas da madrugada respectivamente para serem os primeiros a receber as senhas. De nada adiantou, porque as filas só ocorrem quando os portões do órgão se abrem às 08 horas. Nessa hora todos os despachantes já estão lá. No caso dos dois rapazes, ambos de municípios vizinhos, que pediram para não ser identificados, somente um conseguiu finalizar a documentação do veículo, já por volta das 14 horas no fechamento do expediente. O outro, que, aliás, havia chegado às 04 da madrugada, voltou para a cidade vizinha sem concluir a documentação. Coisas da burocracia e da desleal concorrência. “Passei de madrugada e vi esse rapaz no portão já esperando para ser atendido”, disse um motorista da prefeitura que trabalha na coleta de lixo. Recentemente a esposa de um jornalista ameaçou chamar a polícia, a imprensa e o Ministério Público para fazer valer seu direito de cidadã. Por acaso ela estava novamente no órgão na segunda-feira (16) para efetivar o licenciamento de seu veículo. “É um abuso o que ocorre aqui. Eles (os despachantes) tomam conta e ninguém faz nada. Diante dos nossos olhos eles chegam com um monte de documentos e ficam horas, como se não bastasse vem outros funcionários das autoescolas e trazem mais documentos, a gente simplesmente vai ficando para segundo plano. Isso merece um ajuste de conduta do Ministério Público”, disse. Vários outros usuários reclamaram do mesmo procedimento, mas acabam aquiescendo diante do temor de serem preteridos no atendimento caso reclamem.
Os servidores do DETRAN estão em greve em todo o Estado reivindicando melhores condições de trabalho. A mão de obra nos guichês das Ciretrans diminuiu consideravelmente o que só piora para o usuário. Só para o usuário. Porque os despachantes conhecem os caminhos das pedras. E das senhas.