“E se chegarmos ao período de chuvas dessa forma, como vai ser? Como vai ficar esse bairro em novembro, dezembro?”
 
Quando se iniciou em janeiro deste ano as obras de implantação da rede de captação de águas pluviais e asfaltamento das ruas e avenidas dos bairros Barão do Melgaço e Alto dos Parecis, em Vilhena, as autoridades e a empresa sabiam que enfrentariam alguns transtornos necessários para a realização dos trabalhos, que exigem a escavação do solo, o que inevitavelmente ocasionaria a obstrução de vias públicas por algum tempo. O que os moradores daqueles bairros jamais imaginaram é que eles seriam tolhidos de direitos fundamentais como o de ir e vir.
 
As reclamações contra a forma como a empresa atuava começaram praticamente juntas com a obra. A população dos bairros reclamou de transtornos causados pelas obras de implantação da rede de captação de águas pluviais. Segundo os moradores, a construtora não demonstrava nenhuma preocupação em causar o menor transtorno possível aos habitantes daquela região da cidade. Pelo contrário, sem qualquer respeito aos residentes, a empreiteira abriu valas enormes nas ruas e,  mesmo após a colocação das manilhas, mantinha os buracos abertos e o trânsito bloqueado naquele trecho enquanto abria novas valas em outros pontos, aumentando ainda mais o transtorno.
 
Os bairros Alto dos Parecis e Barão do Melgaço viraram uma grande cratera e a condução das obras de drenagem virou alvo de críticas de vereadores durante sessão do Legislativo Municipal. Os parlamentares  Vivian Repessold (PP) e Pedrinho Sanches (Avante) levaram o assunto à Casa.
 
De lá para cá a situação se agravou ainda mais. Por causa de erros da construtora,  chuvas abriram uma cratera no meio da rua colocando em risco quem trafegava pela local.
 
Com tantas reclamações e diante de um atraso no cronograma das abras, o MP recomendou ao Município de Vilhena a regularização de obras de drenagem. No documento, o MP estipulou o prazo de 30 dias para que o município e a empreiteira adotassem providências para solucionar o atraso no cumprimento do cronograma físico-financeiro do contrato administrativo, alcançando como resultado a conclusão da instalação do sistema de drenagem profunda e cobertura das vias. O prazo expirou em julho. A obra segue sem conclusão. Os transtornos persistem.
 
As chuvas que caíram nos últimos dias aumentaram ainda mais o caos nas vias dos dois bairros. A situação é tão caótica que entregadores estão evitando levar encomendas para aquela região. Um dos vídeos postados nas redes sociais denunciando as mazelas de quem mora e transita por aquelas ruas, mostra pessoas ajudando a um entregador de gás, que lutava para sair do lamaçal empurrando a motocicleta.
 
Moradora do bairro, a fonoaudióloga Adê Dias é uma das milhares de pessoas que têm sofrido na pele a falta de respeito e o descaso por parte da empreiteira. Ele contou à reportam que por duas vezes já atolou seu veículo e precisou de ajuda para sair da lama. “Isso aconteceu quando eu conseguia chegar em casa de carro, porque há uns 15 dias abriram um buraco na frente da minha casa e eu tenho que deixar o carro longe e chegar caminhando. Ontem, inclusive, fiz esse percurso debaixo de chuva”, contou.
 
Adê Dias citou ainda o medo de assaltos, já que as ruas, segunda relato dela, são pouco iluminadas. “As ruas são muito escuras e você não vê nenhum policiamento, desde quando começou esta obra não vimos mais viaturas policiais por aqui; e todo mundo deixa o carro longe e precisa seguir a pé”, explicou.
 
A fonoaudióloga citou também o receio de começar o período de chuvas sem a conclusão da obra. “Está muito difícil, e isso porque estamos no período de seca. Agora, quando chove é caos total. É impossível a gente passar com carro. E se chegarmos ao período de chuvas dessa forma, como vai ser? Como vai ficar esse bairro em novembro, dezembro? Eu fico desesperada só de imaginar”, disse.  
 
Adê Dias fez uma denúncia junto ao Ministério Público. “Eles não queriam nem receber a minha denúncia. Disseram que outras pessoas já haviam denunciado e que já haviam aberto processo. Eu insisti que minha denúncia fosse também incluída no processo”, disse Dias, antes de desabafar: “A gente paga os nossos impostos, a gente também tá fazendo a nossa parte e recebe em troca esse descaso. Eu sei que é para melhoria do bairro, mas a gente queria que pelo menos fosse feito de uma maneira organizada. Não dessa forma, cavando buracos no bairro todo”, pontuou,   antes de concluir: “E a gente não vê os órgãos que deveriam estar fiscalizando isso aqui, cobrando. A gente fica a mercê, a gente não tem pra quem reclamar”.
 
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