A senadora acreana Marina Silva oficializou ontem (quarta-feira, 19) sua saída do PT. Deverá migrar para o PV. O partido a quer como candidata a presidente da República nas eleições de 2010. Caso tal hipótese se confirme, alguns políticos “verdes” de Rondônia ficariam em maus-lençóis. É o caso, por exemplo, do deputado estadual Luizinho Goebel, de Vilhena. Aliado de primeira-hora do governador Ivo Cassol (PP), teria que, por fidelidade partidária, apoiar Marina. A candidata de Cassol é Dilma Roussef (PT).
Os outros dois deputados do PV no estado – o estadual Miguel Sena e o federal Lindomar Garçom – também são ligados a Cassol e não têm afinidade com a causa de Marina: o meio ambiente. Ou seja, em Rondônia a possível candidata a presidente não teria uma base política sólida a depender do apoio dos seus co-partidários.
Na época em que era ministra do Meio Ambiente do Governo Lula, entre 2003 e 2008, Marina colecionou inimigos poderosos em Rondônia e foi duramente criticada, sobretudo, pelo governador Cassol. O então vice-presidente da Assembleia Legislativa, Alex Teston (PTN) – hoje prefeito de Ouro Preto do Oeste – a rotulou como a “Inimiga número 1 de Rondônia” por não ter aprovado as licenças prévias das usinas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira (RO).
Em Vilhena, Marina também é odiada pelos ruralistas. No Sindicato dos Produtores Rurais, por exemplo, ela era vista, à época que estava no ministério, como um entrave ao desenvolvimento de Rondônia pelas posições que os grandes agricultores consideram “ortodoxas” [em relação ao meio-ambiente].
CHANCES DE MARINA – Uma eventual participação da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (PT-AC) na disputa à sucessão no Planalto pelo PV é bem vista por cientistas políticos entrevistados pela Agência Estado. Na avaliação deles, Marina representaria uma "terceira via" em uma corrida eleitoral polarizada por PT e PSDB. "Ela deve ser a alternativa dos eleitores descontentes com o governo do presidente Lula e com o trabalho da oposição", explica Humberto Dantas, conselheiro do Movimento Voto Consciente.
Os cientistas políticos ainda ressaltam que a participação de Marina na corrida eleitoral deve empurrar a disputa para o segundo turno. Figura carismática e com uma trajetória de peso em prol do meio ambiente, a ex-ministra deve obter "uma margem de 15% dos votos em primeiro turno", estima Dantas. Além de eleitores descontentes com a dobradinha PSDB-PT, a ex-ministra deve angariar os votos de eleitores mais esclarecidos sobre os riscos de uma catástrofe ambiental e de "órfãos da ex-senadora Heloisa Helena (PSOL)", que pode não disputar as eleições em 2010. "Ela vai carregar uma bandeira importante e pouco recorrente no universo político brasileiro: a proteção ao meio ambiente", lembra José Paulo Martins, coordenador da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
Caso seja mesmo candidata, Marina Silva também deverá provocar uma mudança no discurso eleitoral de seus concorrentes, sobretudo o tucano José Serra e a petista Dilma Rousseff, que se pautam por uma linha mais desenvolvimentista. Para Carlos Melo, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper, ex-Ibmec), a senadora colocará em pauta no debate político a preservação ambiental, "tema pouco caro aos virtuais candidatos à presidência Dilma e Serra". Na sua avaliação, tanto a ministra-chefe da Casa Civil como o governador de São Paulo terão como carro-chefe em 2010 programas que esbarraram no meio ambiente e compraram briga com ambientalistas. "Eles terão de tomar cuidado quando falarem sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e sobre o Rodoanel", destaca Melo.
Desde o início de junho, a ex-ministra do Meio Ambiente é sondada pela cúpula do PV para disputar a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Seu nome surgiu em pesquisa feita com membros da sigla que apontou o desejo de 85% da militância em ter candidatura própria nas próximas eleições. No início um pouco relutante em aceitar o convite, Marina mudou de postura no final de julho, quando uma pesquisa telefônica encomendada pelo PV mostrou que o seu nome é competitivo para a disputa presidencial.
Ainda que a ex-ministra seja uma candidata de peso, as chances de ela ser eleita são reduzidas, avaliam os especialistas. Humberto Dantas lembra que o PV é um partido pequeno, com pouca representação política e com um reduzido tempo de campanha televisiva. Contudo, os analistas foram unânimes em reconhecer que tanto Marina como o PV devem sair ganhando desse enlace eleitoral. A ex-ministra deve ter apoio incondicional dos verdes em reafirmar a sua luta favorável à preservação do meio ambiente. E a sigla ganhará projeção nacional e deve fortalecer a sua bancada no Congresso Nacional. "O partido já fala em ampliar de 14 para 25 o número de deputados federais. Eles estão certos em apostar que a senadora é uma boa puxadora de votos", avaliou Dantas.