“Quero conhecer um homem que seja gringo e que me leve para longe daqui”, diverte-se ao falar de Joszef Nemeth, o mecânico húngaro com quem se casou
Dona Angelita Correia da Rocha, uma alagoana nascida em 1930, prestes a completar 95 anos, é uma verdadeira guardiã de histórias. Lúcida, bem-humorada e com respostas rápidas, ela narra episódios fascinantes da história de Vilhena. Por exemplo, ela recorda a época em que nenhuma casa da vila tinha água encanada e não havia construções em alvenaria.
"Chegamos aqui por volta de 1968. Todas as mulheres lavavam roupas no rio Pires de Sá, e depois equilibravam as bacias na cabeça para levá-las de volta. Nas manhãs em que lavávamos roupas, voltávamos para casa com muita fome e ainda tínhamos que preparar a comida no fogão a lenha”, relembra.
Angelita havia vivido em São Paulo, onde desfez um casamento e já tinha três filhos. Trabalhava como operária e costureira. Um dia, ela pediu a Deus: “Quero conhecer um homem que seja gringo e que me leve para longe daqui”, diverte-se ao contar. E assim surgiu Joszef Nemeth, um mecânico húngaro. “Quando rezei, pensei em ir para o outro lado do mundo. Mas vim parar em Vilhena, que era o fim do mundo”.
Com apenas 300 habitantes na vila, onde chegaram a bordo de um caminhão, Angelita e Joszef viveram grandes aventuras. “Fui costureira e criei galinhas. Era uma boa profissional da costura e ganhei um dinheiro naquela época”, orgulha-se. Joszef adquiriu um projetor de cinema manual e começou a viajar por toda a região, até Ji-Paraná, exibindo filmes. “Um dia, o equipamento estragou. Ele levou para consertar em Cuiabá, mas nunca o buscou, por falta de dinheiro”.
Após o fim das viagens, Joszef – conhecido como Gringo – se estabeleceu como mecânico autônomo e funcionário do 5º BEC (Batalhão de Engenharia e Construção). Nas horas vagas, treinava times de futebol e atuava como goleiro. “Ele foi um dos primeiros a lidar com futebol em Vilhena”, narra Angelita. Joszef faleceu em 1999, vítima de diabetes, aos 67 anos. Teve dois filhos com Angelita: José, falecido em 1995, e Denise. Apenas Denise está viva e cuida da mãe.
Neste mês de fevereiro, um sobrinho-neto de Joszef, Vig Kristóf József, de 28 anos, veio da Hungria conhecer dona Angelita e os demais familiares. Na Hungria, ele havia deixado esposa e filho. “Eu não sabia de muitas coisas que ele [o visitante] nos contou aqui. Quando o Joszef veio para o Brasil, em 1957, estava fugindo de problemas resultados dos conflitos após a Segunda Guerra Mundial”, relata a viúva, com seus expressivos olhos verdes e sorriso contagiante. A guerra acabou em 1945, mas a Hungria sofreu com a ocupação soviética até 1991.
Autor:
Júlio Olivar - Especial para o FOLHA DO SUL ON LINE
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 19 de Fevereiro de 2025, às 15:03