Faz chuva ou faz sol, lá está ela, ainda na madrugada, de bom humor:  pedalando, segue rumo ao trampo, há sete anos fazendo o mesmo trajeto. Com fone no ouvido, boné na cabeça, e luva nas mãos, ela desce e corre, cata, para e joga. Tem brio, vaidade, altivez não lhe falta. Em uma equipe com mais de quarenta homens, não ousem dizer que não carece de valentia. Um trabalho no qual ela mesma admite existir preconceito, porém, garante não se importar. 

Com os dedos a mexer na corrente que adorna-lhe o pescoço e no exercício de seu ganha-pão ou a passeio, está sempre a usara jóia. Olhando nos olhos, afirma: “Eu sou mais eu. Se eu acordo às cinco horas da manhã para trabalhar, não me importo com o que as pessoas estão pensando. Mas o preconceito existe, sim”. 

É a única mulher do grupo, mas não esmorece na suada e árdua incumbência da profissão na qual realiza serviço que muitos homens não se dispõem a fazer. As pernas torneadas escondidas por baixo de um uniforme, que não se distingue das vestes masculinas, ainda assim, discretamente revelam no andar, agachar, segurar e levantar, a delicadeza que lhe é pessoal. 

Por algumas vezes, durante o percurso, em atividade, retira a luva e passa a mão no cabelo, ajusta aqui e ali, brinca e canta. E, subitamente, manifesta-se, exclamando “fia”, gíria típica de sua fala: “Fia do céu! Não é fácil viu?”, solta, quando se depara com a indiferença alheia em relação à verdadeira ocupação que compete a ela e seus colegas de profissão. 

Morena, alta, mulher de fé, mãe, e única gari do gênero a labutar nas ruas de Vilhena. Com um sorriso largo, expansivo em personalidade, conta que quando iniciou nesta função, achava que não ia durar: “Nem eu mesma acreditava em mim. Muitos falavam: “Ela não vai ficar! ela não vai ficar! Mas eu fui ficando e estou lá até hoje”. 

Valci Caetano da Silva, 39 anos, acredita ter surpreendido várias pessoas, mas surpreendeu muito mais a si mesma. Dentre mulheres e homens que ingressaram no ofício de gari na época em que foi contratada, além de ser única mulher que perseverou no cargo, ela permaneceu até poucos dias percorrendo as ruas do bairro 5º BEC a recolher o lixo produzido pelos que ali moram. 

Curiosamente, após correr de cachorros, ver companheiro de trabalho sofrer acidente grave e ser pessoalmente ofendida lidando com descasos que a ocupação infelizmente lhe rende, recentemente passou a dedicar-se ao serviço interno na empresa que atua na coleta de lixo em Vilhena. E estar grávida é o que explica o remanejamento de função. 

Após um casal de filhos, já crescidos, que quando mencionados revelam brilho no olhar e orgulho explícito, Valci também não hesita em mostrar entusiasmo pela gravidez da qual fala com euforia. Diz que o bebê é um menino e que aceita presentes. 

Espontaneidade descreve Valci. Frente a câmeras ela se mostra tímida: a gargalhada solta se faz nervosa, entretanto, se mantém altiva e feminina. Mas não é preciso um dia com Valci para descobrir nela o espírito guerreiro de muitas mães e o respeito que impõe à família. Basta saber que mulheres como ela existem. E nesta ocasião, lindamente representa o trabalhador, a mãe e a profissão de gari. Como Valci mesma diz: “Não importa o trabalho, o importante é manter a dignidade”.