Uma ave que já foi parte da paisagem rural do interior do Cone Sul praticamente não existe mais. O pássaro conhecido como Inhambu, que chegou a ser tema de uma música caipira da dupla Tonico e Tinoco, era encontrado em grande abundância na região sul rondoniense na época da colonização agrícola, nas décadas de 1970 a 1980.
O pássaro era parecido com uma rolinha, mas que com porte um pouco maior. A ave tinha hábitos de comer sementes e de voar somente quando incomodada muito de perto, preferindo correr a bater as asas quando sentia o perigo. Gostava de roçados e lugares com vegetações arborizadas, como as “capoeiras”.
O Inhambu tem a variação de espécie mais famosa conhecida como chororó, com “ch”, embora um cantor sertanejo tenha adotado este nome com um “x”, ainda que haja polêmica entre os gramáticos sobre a forma correta. Além de bonito e fácil de capturar, o Inhambu tinha um atrativo a mais: era saboroso. A carne da ave tinha um sabor incomparável quando frito.
A reportagem do FOLHA DO SUL ON LINE conversou com dois pioneiros nos municípios de Cerejeiras e Corumbiara sobre a trajetória da ave na região. Um deles, de uns 50 anos, disse que havia muito Inhambu na década de 1980, e que era uma das carnes preferidas dos pioneiros. “Eu caçava esse passarinho com estilingue. Chegava em casa com um embornal cheio de Inhambu. Era bom demais”, disse o pinheiro. E reclama: “Hoje é uma raridade achar um”.
O outro agricultor, de Corumbiara, mas com menos idade, na casa dos 30 anos, diz que caçar a ave era um dos passatempos preferidos dos adolescentes da idade dele nos tempos da colonização. “A gente caçava Inhambu e comia. A carne é gostosa demais”, diz.
Ambos os pioneiros confirmaram ao site que a ave quase não existe mais no interior do Cone Sul e citam dois motivos para a quase completa extinção do animal. “Acho que os Inhambus que tinha foram todos mortos por moradores da época”, diz um deles.
Já outro pioneiro acredita que o sumiço da ave tenha outro motivo. “Eu acho que as lavouras de soja, com os venenos que se passam nas plantações, acabaram matando os Inhambus que existiam por aqui”.
Veja, abaixo, um trecho da música que incluiu a ave mais conhecida dos caipiras no país.
Eu não troco meu ranchinho
amarradinho de cipó
Por uma casa na cidade,
nem que seja bangalô
Eu moro lá no deserto,
Sem vizinho, eu vivo só
Só me alegra quando pia,
lá pr'aqueles cafundó
É o inhambu-xintã e o chororó
É o inhambu-xintã e o chororó [...]