Nascido no interior do Paraná, o ex-prefeito Melki Donadon completou 45 anos de idade no último dia 18. Mora no Cone Sul desde os 10. De menino da roça ao político habilidoso e nada óbvio, tornou-se um mito regional até sofrer o duro revés em 2008 quando, depois de dado como morto em Brasília (DF), ressurgiu e disputou pela quarta vez a prefeitura de Vilhena. Perdeu a eleição para um ex-seguidor: Zé Rover (PP).
No mês passado, protagonizou uma polêmica. Mais uma. Inesperadamente, trocou o PMDB, maior partido do país – e também de Rondônia – pelo nanico PHS. Tornou-se pré-candidato a governador, mas não abriu mão do sonho de ocupar a cadeira de Acir Guargacz (PDT) no Senado. Na entrevista a seguir, Melki fala de equívocos, sonhos e projetos políticos. Confira os principais trechos d conversa:
- FOLHA: Até agora o senhor não esclareceu o porquê de ter saído do PMDB, partido onde estão seus dois irmãos deputados. Não há constrangimento diante da possibilidade de vocês estarem em palanques opostos em 2010?
- MELKI: Não, nenhum constrangimento. A população sabe distinguir, sabe que às vezes é preciso você buscar o seu caminho e ampliar o debate. O eleitorado tem este direito de ter mais opções na disputa pelo Governo e foi por isso que, depois de dez anos, deixei o PMDB. É a democracia.
- FOLHA: O senhor pretende, realmente, concorrer ao Governo ou tal postulação é mais para negociar uma indicação como candidato a vice-governador, por exemplo?
- MELKI: Pretendo ser candidato ao Governo e nunca fiz isso de negociar, em toda a minha história. Porém, é preciso buscar união e não se trata, neste caso, de negociata. Estamos conversando com outras forças políticas e não descarto, inclusive, ser candidato a vice, como você cita. Mas quero ser governador.
- FOLHA: Com quais partidos o senhor está conversando?
- MELKI: Com vários partidos, inclusive o próprio PMDB, de onde saí. Não estamos rompidos, muito pelo contrário. O presidente do PHS, Herbert Lins, também anda articulando com o PSDB do Expedito Júnior e com o PT. O certo é que vou participar das eleições de 2010 e para isso preciso de aliados.
- FOLHA: No ápice de sua carreira política, poucos anos atrás, dizia-se que se o senhor indicasse um poste para ser candidato a prefeito de Vilhena ele venceria as eleições. O senhor chegou a acreditar nisso?
- MELKI: Não, de forma nenhuma. As pessoas têm capacidade e inteligência para decidir, não aceitam imposições.
- FOLHA: Correligionários seus acreditavam tanto em seu potencial, carisma e disposição para fazer campanha eleitoral, que chegavam a afirmar que ainda o veriam presidente do Brasil. E o senhor? Também cultuou esse sonho?
- MELKI: Não. É muito difícil. Mas sempre sonhei ser governador de Rondônia.
- FOLHA: No poder em Vilhena, o senhor comprou uma briga com o governador Ivo Cassol (PP). Depois, ele acabou participando, decisivamente, da eleição do Zé Rover (PP) que o venceu na disputa para a prefeitura, em 2008. Foi uma resposta dele para o senhor?
- MELKI: Bem, não acredito que seja por isso que o Rover me venceu. O Cassol pode ter ajudado, mas eu creio que havia naquele momento uma vontade do povo de experimentar e testar alguma coisa nova, isso é comum. Claro que ele contribuiu, com sua força política, mas não foi apenas isso.
- FOLHA: A indicação da sua própria mulher para ser sua candidata a vice-prefeita foi um equívoco?
- MELKI: Sim, admito que foi sim. Era preciso ampliar mais, atrair outras lideranças para o nosso grupo. Aprendemos muito com isso. A gente aprende com as derrotas.
- FOLHA: O senhor quer voltar a ser prefeito de Vilhena?
- MELKI: Ainda é cedo, vamos ver o desenrolar das coisas. A vez agora é do Zé Rover, eu respeito isso. A vez é deles!
- FOLHA: Há duas semanas, o empresário Acir Gurgacz (PDT) assumiu como senador, depois da cassação do mandato de Expedito Júnior (PSDB). O fato é que Acir também responde a um processo por abuso de poder econômico. O senhor ficou em terceiro lugar para senador, em 2006, pelo PMDB. Acha que pode vir a ocupar a cadeira que hoje é do pedetista?
- MELKI: Acredito. Não sou eu que estou mexendo os pauzinhos, mas sim o Ministério Público Eleitoral e a própria Justiça.
- FOLHA: Mas o senhor deixou o PMDB. Ainda teria direito ante a uma suposta cassação de Acir?
- MELKI: Não tem nada a ver. Eu vejo que foi uma disputa majoritária, os votos foram para mim, não foram votos de legenda. O PMDB teria um prazo, creio que de 30 dias, para entrar na justiça e pedir a vaga no Senado quando eu deixei o partido. Isso não ocorreu e agora vou, sim, brigar por esta vaga. Não brigaria com Expedito, que venceu as eleições e tinha legitimidade para continuar no Senado. Mas, com Acir é diferente. Ele ficou em segundo lugar e eu em terceiro. Nós dois não fomos eleitos.
- FOLHA: Na sua infância difícil, o senhor trabalhou como engraxate e na lavoura, concluiu apenas o ensino médio. De onde vem o conhecimento sobre política?
- MELKI: Sou o que sou, erro o português, mas tenho adquirido alguma cultura, lendo e observando. Costumo dizer que sou 30% do que foi meu pai [o ex-prefeito de Colorado do Oeste, Marcos Donadon, já falecido]. Ele era pedagogo, cursou Direito, era técnico em agropecuária e, sobretudo, lia demais. Repassava para mim e meus nove irmãos suas vivências e conhecimentos. Era muito inteligente e nos deixou um pouco desta herança.