Estima-se que cidade pode ter até mil casos de pessoas que tenham algum grau autismo
Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia e Psicóloga pela PUC/PR, Lucélia Gonçalves preparou para a versão on line da FOLHA DO SUL um artigo referente ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo.
O assunto foi abordado na versão impressa deste noticioso, que foi às bancas no sábado, 30. Estima-se que em Vilhena possa haver até mil casos de pessoas que tenham algum grau autismo, entre crianças, adolescentes e adultos.
Nesta terça-feira, 02, a partir das 17h30min, acontecerá uma caminhada para conscientizar a população sobre o tema, organizada pela jornalista Karina Andrade, fundadora do grupo “Autismo Vilhena”. O início será no semáforo da avenida Marques Henrique, encerrando na Praça Ângelo Spadari. O evento é aberto à comunidade. Na oportunidade estarão profissionais da educação, pais de autistas e envolvidos com a causa em geral.
Leia na íntegra o texto da psicóloga:
Hoje, 2 de Abril é o dia mundial de Conscientização do Autismo.Precisamos desmistificar e falar sobre isso. O autismo é um comprometimento no funcionamento psíquico,típico da infância em que os sinais se manifestam nos dois primeiros anos de vida.
Há muitos debates acerca da causa e embora haja diversas pesquisas médicas que estreitam relações entre patologias orgânicas e o autismo, as causas são multifatoriais e o seu diagnóstico é baseado nos sinais e sintomas que se apresentam de diversas maneiras.
Nos primeiros meses ou anos de vida, a criança apresenta os sinais indicativos de que algo não vai bem, mas por ser considerada como “tranquila”; muitas vezes os indicativos são pouco percebidos ou pouco valorizados, inclusive pelos profissionais. É frequente, as crianças serem encaminhadas a diversos exames e somente quando o atraso na aquisição da fala persiste é que são encaminhados para o tratamento devido.
Os sinais precoces se apresentam com a ausência do contato com o olhar nos pais ou cuidadores. A criança não fixa o olhar nas pessoas que lhe dirigem o cuidado, mesmo que seja durante a amamentação. O bebê não busca ativamente o olhar da mãe e não responde em ações ou movimentos à fala materna. Os sintomas se manifestam como a irritabilidade, dificuldades na alimentação, atrasos no engatinhar, andar e sentar. Vale ressaltar que é preciso considerar o tempo de cada criança, porém, no autismo o atraso é persistente.
Uma das características mais marcantes do autismo é a dificuldade em interagir com outras crianças e até com parentes próximos. Há um extremo isolamento. Não há interação com os outros, a criança não enlaça no brincar e tampouco com outras crianças. Qualquer alteração em sua rotina lhe causa desconforto, por vezes se manifesta com agressividade.
Todo o processo de definição do diagnóstico é delicado e complexo, poispode ser que o bebê apresente sinais que indiquem dificuldades no enlace com o agente maternante e vale considerar o início do tratamento precoce. Isto me leva a propor que somente a partir dos três anos é possível definir o diagnóstico, considerando o diálogo com outros profissionais que se ocuparem do tratamento da criança.
Muitas vezes, o diagnóstico pode levar a os pais a um movimento de fuga do tratamento e nesse caso é preciso acolhê-los. Ao perceber e reconhecer essas dificuldades, a família deve procurar o tratamento para a criança, especialmente porque a presença dos pais se torna um aliado ao tratamento a partir de uma lógica que os acolha e os inclua no vinculo da criança com o tratamento. A intervenção precoce é uma aposta possível para uma evolução clínica muito mais favorávelpara que a criança não seja tão prejudicada em seu desenvolvimento. É necessária e imprescindível a parceira de trabalho entre psicólogos, professores, médicos, fonoaudiólogos e demais profissionais que se ocupem das intervenções e devidos acompanhamentos.
É imprescindível que o profissional em seu manejo crie o espaço de acolhimento dos pais e da criança para que haja um lugar possível para o sujeito autista. Principalmente, que a direção do tratamento viabilize o trabalho de invenção de sua marca singular. Muito além de um diagnóstico ali há um sujeito, um ser.
Autor:
Jéssica Chalegra
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 02 de Abril de 2019, às 10:58