“Não vejo nenhum antagonismo entre ser juiz e poeta”, diz magistrado-escritor
Juiz de direito em Vilhena (Sul de Rondônia), o paulistano Vinícius Bovo de Albuquerque Cabral tem 52 anos e desde os 08 é encantado pela escrita. Começou naquela idade a engendrar redações — a princípio, sobre aventuras; a poesia o despertou mais tarde — em um diário projetado “ingenuamente” para ser um livro que nunca foi concluído.
Mas outros livros vieram, agora com a força-motriz de um poeta maduro e em ebulição, talentoso e ligeiro no uso das palavras certeiras, mesmo que no caminho tortuoso da subjetividade que as tramas poéticas encerram.
Dia 1º de setembro o juíz-poeta [o inverso, segundo o próprio] lança na livraria Café & Letras (Galeria Mirage), região central de Vilhena, a obra “contratempo”. A sessão de autógrafos será das 16h30 às 19h30h; informal, aberta ao público. “Assim, cada qual pode escolher o melhor horário, sem formalidade alguma. Acho isso importante, para que as pessoas não pensem que se trata de um pretencioso acontecimento de longa duração”, frisa o autor.
Bom de conversa, sensível e reconhecido como poeta de estirpe entre seus admiradores, Vinicius Albuquerque — conforme ele assina seu livro — concedeu a seguinte entrevista:
FOLHA — Conte-me um pouco sobre o senhor. Um juiz poeta. Por que poesia? Ela é essencial, um hobby ou um contratempo em sua vida?
VINÍCIUS — Interessante, não vejo nenhum antagonismo entre ser juiz e poeta. Ou antes poeta e depois, juiz. Para mim a poesia é essencial, sem dúvida. Algo que permite o uso de uma linguagem significativa, repensada, em busca de descobertas ainda possíveis, a despeito da utilização da nossa Língua Portuguesa de todo dia. Contratempos há e são frequentes: a solução que se almeja raramente surge de plano, o que é inerente ao meu processo criativo e, em certa medida, faz dele um desafio prazeroso. Aliás, no livro contratempo esse fazer poético é objeto de reflexão, inclusive sob a vista dos tempos atuais, em que poesia seria um “não-produto”.
FOLHA — Cabe poesia no seu mister de magistrado? Já usou a poesia em uma sentença, por exemplo?
VINÍCIUS — O rigor técnico e a sensibilidade são imprescindíveis à Poesia e ao Direito. Toda literatura, poética ou jurídica, é produto humano, destinado ao homem. Assim, acredito que o conhecimento deva ser aliado da sensibilidade, tanto na sentença quanto no poema. Mas não reputei necessário ou conveniente citar algum poema próprio em sentença. Já mencionei versos de música popular [“Pedaço de mim” canção de Chico Buarque], que bem traduziram, penso, o sofrimento de uma família que perdeu um filho e foi algo necessário no contexto de delimitar a indenização por danos morais.
FOLHA — Desde quando escreve? O interesse pela poesia deve ser estimulado na infância?
VINÍCIUS — Aos oito ou nove anos comecei a escrever um diário que ingenuamente transformou-se no esboço de um livro de aventuras jamais consolidado. Curioso que para mim a poesia surgiu depois, conforme eu ia amadurecendo e a entendendo, embora sem definir, como exercício de linguagem, ainda que fosse um simples gosto em brincar com palavras. Isso é comum às crianças que, sem saber, fazem poesia em qualquer conversa, criatividade que, penso, deve ser estimulada de forma lúdica, apresentando autores que possam transmitir os prazeres de ler e escrever. Se os programas de literatura nas escolas permitem, há professores que seguem a ordem cronológica inversa: parte da literatura contemporânea, que com maior facilidade dialoga com o público atual e vai retroagindo aos primórdios, quando o leitor já se revela mais experiente.
FOLHA — E este novo trabalho, como o define?
contratempo (em minúsculas, mesmo) foi concebido como obra mais coesa. A citação inicial, de autoria do escultor Amilcar de Castro é, de certa forma, desenvolvida ao longo do livro até resultar no último verso do último poema. Se tal objetivo foi alcançado, caberá ao leitor dizer. Apesar disso, cada poema, lido a esmo, também se resolve em si, é um pequeno e modesto universo, digamos assim.
FOLHA — Quantos poemas compõem o livro? Levou quanto tempo para concluí-lo?
VINÍCIUS — O livro é composto de 65 breves poemas. Alguns tiveram gestação bastante longa, de até 10 anos! Não significa que passei todo esse tempo escrevendo-os, mas foram muitas vezes revisados e modificados, tentando alcançar a síntese do que eu conseguiria dizer, muitas fracassando. Alguns foram concebidos logo após a publicação de meu livro anterior, “ainda”, em 2012, que aliás será relançado em terceira edição.
FOLHA — A poesia já foi a vertente da literatura mais popular e presente no dia a dia — poetas eram chamados de “cantores” e tinham suas produções estampadas nas capas de jornais até o século XX. Obras poéticas eram dissecadas por críticos lidos com imenso interesse do público, como foi o caso de Osório Duque-Estrada. Em que momento a poesia passou a ter um olhar menos atencioso?
VINÍCIUS — Sim, muito interessante. Há teorias a defender que a poesia, ou ao menos certos recursos poéticos, teria surgido como linguagem antes da prosa. Essa pergunta merece uma investigação acadêmica, mas me arrisco dizer que a crescente imposição pela feitura de coisas úteis nas sociedades contemporâneas desestimulou a fruição da arte como um todo. Perguntam-se, talvez, alguns leitores: por que ler algo que aparentemente não me oferece um retorno imediato? Podem pensar ser mais efetivo ler um livro ou assistir a um vídeo que de modo imediato ensine uma nova habilidade produtiva, que se converta em dinheiro. Possível, também, que a natural busca por inovações poéticas, por vezes a exigir conhecimentos específicos, tenha afastado muitos leitores.
FOLHA — Das suas referências: qual o nome brasileiro que o senhor mais aprecia no universo poético?
VINÍCIUS — Universo poético, ótimo termo para tratar de poesia. Difícil escolher um, ou dez, mas com certeza João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond, Paulo Henriques Britto e meu querido amigo Aguinaldo Gonçalves, que prefaciou “ainda”, estarão entre eles.
FOLHA — Conceição Evaristo e Fabrício Carpinejar são poetas populares da atualidade. O senhor os aprecia?
VINÍCIUS — Sim, populares no melhor sentido, de alcançar o público, o que é de todos, o que reflete algo apreensível por muitos. Mas como fica claro em sua pergunta, ambos são poetas, que utilizam a linguagem como matéria-prima, o que revela um cuidado no fazer, digno de uma linguista como Conceição e de um jornalista, feito Carpinejar.
FOLHA — Como o senhor avalia a cena da literatura produzida em Rondônia?
VINÍCIUS — Produz-se em silêncio. Não carecemos de bons autores, mas sim de divulgação, de oportunidades como essa para alcançar o público. Vislumbro duas linhas principais, a da poesia popular, regional e memorialista e aquela outra, de produção acadêmica universitária. Essas vertentes mereciam encontrar-se com maior frequência em saraus populares e eventos acadêmicos abertos ao público, como o SELL (Seminário de Estudos Linguísticos e Literários), uma preciosidade da Universidade Federal de Rondônia, campus de Vilhena.
Fotos
Autor:
Júlio Olivar - Especial para a FOLHA
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 25 de Agosto de 2022, às 07:48