Nome de Theodore Roosevelt foi usado para batizar rio que nasce em Vilhena
*Júlio Olivar, especial para o FOLHA DO SUL ON LINE
Vez ou outra, o Rio Roosevelt, que nasce no Planalto dos Parecis, em Vilhena, volta ao centro das atenções. Para os menos avisados, o nome pode parecer um estrangeirismo gratuito; para outros, um motivo de contestação. Mas a história por trás desse batismo é um dos episódios mais dramáticos e internacionalmente relevantes da formação de Rondônia.
Originalmente, o marechal Cândido Rondon o batizou como Rio da Dúvida. A razão era pragmática: em sua primeira incursão, ele não sabia se as águas corriam para o norte, alimentando a Bacia do Amazonas, ou para o sul, em direção à Bacia do Prata. A dúvida geográfica deu nome ao mistério.
O OLHAR DE EINSTEIN E O NOBEL
Foi a presença do ex-presidente estadunidense Theodore Roosevelt que lançou luz global sobre esse enigma fluvial. A expedição foi tão impactante que despertou a curiosidade de ninguém menos que Albert Einstein. Encantado com a conduta de Rondon, o físico anotou: “Seu trabalho se concentra na integração de tribos indígenas à civilização, sem o emprego de armas nem de qualquer tipo de coerção”. Tamanha admiração rendeu a Rondon a indicação de Einstein ao Nobel da Paz em 1925.
Recentemente, essa jornada foi revisitada pela minissérie “O Hóspede Americano” (HBO), baseada no livro de Candice Millard, ex-editora da National Geographic. A obra detalha a convivência entre dois homens antagônicos unidos pela selva.
O “CAXIAS” E O EXPLORADOR
Rondon era o militar “caxias”: disciplinado, rigoroso e, por vezes, enfrentado por seus próprios comandados. Já Roosevelt, ex-presidente dos EUA, era o entusiasta. Antes de ser abatido pelas doenças, jogava baralho até tarde, contava anedotas e fotografava tudo com o espírito de um safári científico. A expedição, custeada em parte pelo Museu de História Natural de Nova York, resultou em um vasto acervo da fauna brasileira que permanece preservado nos EUA — ironicamente, longe do risco de descaso que muitas vezes assola nossos museus.
Aos 55 anos, Roosevelt pagou caro pela aventura. Delirando de febre e picado por insetos, chegou a pedir que Rondon o abandonasse para morrer. O brasileiro não cedeu. O americano sobreviveu à selva, mas faleceu cinco anos depois, em decorrência das sequelas daquela viagem. Em 1914, em um gesto de admiração mútua, Rondon oficializou a mudança cartográfica: o Rio da Dúvida tornava-se o Rio Roosevelt.
DO RIO À PONTE DO MADEIRA
Se Roosevelt ganhou um rio, Rondon ganhou um Estado. A honraria máxima veio de Edgard Roquette-Pinto — antropólogo e imortal da ABL -, que cunhou a palavra Rondônia (Terra de Rondon) no título de seu livro fundamental de 1917.
Essa parceria histórica foi selada novamente em 2014, no centenário da expedição. Por sugestão do escritor Ricardo Leite (ARL) e iniciativa do então senador Odacir Soares, a ponte sobre o Rio Madeira, em Porto Velho, foi batizada como Ponte Rondon-Roosevelt. Um nome que une a trajetória de dois homens que, cada um à sua maneira, ajudaram a desbravar e narrar os confins da Amazônia Ocidental.
*Júlio Olivar é escritor, autor de vários livros sobre personagens e a história de Rondônia
IMAGENS
FOTO PRINCIPAL
Cena do filme ‘O hóspede americano’. Foto: Divulgação
FOTO SECUNDÁRIA
O Rio Roosevelt à altura do município de Vilhena. Foto: Júlio Olivar
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Fotos
Vídeo
Autor:
Júlio Olivar
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 26 de Março de 2026, às 06:06