A reportagem foi publicada pelo site “O Joio e o Trigo” em 30 de janeiro deste ano
 
A Justiça de Rondônia mandou o site “O Joio e o Trigo” tirar do ar uma reportagem que noticiou a compra de gado proveniente de terras desmatadas ilegalmente por uma fazenda do senador Jaime Bagattoli, do PL.
 
O juiz Andresson Cavalcante Fecury, da 1ª Vara Cível de Vilhena, atendeu a pedido de Orlando Bagattoli, irmão e sócio do senador nas empresas do Grupo Bagattoli.
 
Segundo o magistrado, "a narrativa construída na reportagem extrapola os limites do direito de informar, ao imputar fatos graves e ofensivos à reputação do autor, sem o devido respaldo probatório e sem que tenha sido oportunizado contraditório”.
 
O Joio e O Trigo informou em nota que não concorda com a decisão e vai interpor recursos para revertê-la, "com o restabelecimento da ordem jurídica e a preservação do direito de expressão jornalística".
 
O site informou exercer jornalismo que "prima pela qualidade das apurações, marcadas por um processo de checagem de informação". Para o veículo, a ação configura um "cerceamento da liberdade de expressão”.
 
Na nota, o site disse não poder mencionar detalhes da reportagem censurada, nem revelar o nome dos envolvidos. Procurada pelo UOL, a direção do veículo informou que não poderia prestar esclarecimentos adicionais sobre o assunto.
 
O caso corre em segredo de Justiça a pedido de Orlando Bragatolli. Segundo ele, o objetivo é "evitar nova repercussão midiática dos fatos".
 
A reportagem foi publicada em 30 de janeiro deste ano. A decisão de Fecury é do dia 5 de agosto.
 
Procurado, o Grupo Bragatolli não se manifestou até a publicação desta notícia.
 
A reportagem já foi retirada do ar. Mas foi republicada no site do Pulitzer Center, organização que apoia o jornalismo de impacto pelo mundo.
 
LEVANTAMENTO INTERNACIONAL
De acordo com a matéria, a fazenda Alvorada, parte do Grupo Bagattoli, comprou bois de quatro fazendas com registro de desmatamento ilegal na Amazônia, conforme investigação do CCCA (Center for Climate Crime Analysis), organização sem fins lucrativos que investiga crimes ambientais.
 
Esses bois foram depois vendidos ao frigorífico Minerva, um dos maiores do mundo, que pagou a transação por meio de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio, modalidade específica do agro para emissão de títulos de dívida no mercado financeiro).
 
Em entrevista ao Joio, o senador Jaime Bagattoli disse que a compra de gado de áreas ligadas a desmatamento ilegal é prática comum.
 
"Se você pensar por isso aí [excluir fornecedores que desmatam], manda fechar os frigoríficos. Cinquenta por cento das terras de Rondônia e Mato Grosso têm algum problema ou de regularização fundiária, ou que não deram licença para desmatamento", disse ele.
 
"Ou você acha que a Minerva não compra desse produtor [que desmata]? Você sabe como os produtores estão vendendo lá? Ele vende para um outro produtor para este vender para a Minerva."
 
Em nota enviada ao site, o Grupo Begattoli disse que "as posições pessoais do senador Jaime Bagattoli sobre questões ambientais são independentes das práticas sustentáveis adotadas pelo grupo".
 
O juiz de Rondônia tomou a decisão mais de 40 dias depois do pedido de Bagatolli, mas não intimou a defesa do site jornalístico a se manifestar. Ele afirma ter se baseado na "presença de verossimilhança" nas alegações.
 
Em nota enviada ao UOL, o juiz disse que tomou a decisão com base no artigo 300 do Código de Processo Civil, que permite a concessão de liminar sem ouvir uma das partes.
 
O empresário acusa O Joio e o Trigo de publicar o texto sem ouvir suas empresas envolvidas no caso. O site, no entanto, atualizou o link da reportagem com uma nota de esclarecimento enviada à reportagem no dia 30 de janeiro deste ano.
 
Na nota, o Grupo Begattoli disse que consulta os CPFs dos vendedores para verificar se eles constam de listas de propriedades embargadas pelo Ibama.

Mas afirma que "a lista de áreas embargadas é viva e dinâmica", e é possível que um fornecedor tenha entrado nela depois de ter feito negócio com o grupo.