Enquanto aguarda sonho do sítio próprio, Genevilha trabalha e produz
Um barraco de madeira coberto de lona, chão de terra batida, sem geladeira ou um simples ventilador para amenizar a temperatura nos dias mais quentes. Sem energia elétrica e água encanada, à beira da estrada a caminho de Novo Plano, distrito de Chupinguaia. Estes são o endereço e as condições de vida durante 14 dos 60 anos de vida de Gevenilha Monteiro dos Santos. Negra e analfabeta, ela luta para concretizar o sonho do pedaço de terra através da Reforma Agrária.
Apesar de forte, é conhecida carinhosamente pelo diminutivo “Menininha”. Gevenilha, ou dona Menininha, mora com a neta adolescente e o marido, seu Orlando, que trabalha fazendo bicos pelos sítios da redondeza. Ela conta que saiu com a família de Pimenta Bueno, onde trabalhava como doméstica, em 2002, para um acampamento à margem da BR-364. “Naquele tempo, as pessoas falavam que era fácil a gente conseguir um pedaço de terra. Tínhamos que ficar acampados. Foi quando o INCRA tirou a gente de lá e viemos para cá. Todo mundo falava desse lugar de terra boa”, recorda dona Menininha.
Em sua lembrança, Gevenilha descreve que assim que chegou no acampamento a poucos quilômetros do rio Pimenta, em Novo Plano, o local estava repleto de barracos. “Isso aqui era cheio de gente, era animado, só que sempre foi sofrido. O povo passava gritando e xingando a gente de vagabundo”, disse ela, que explicou porque apenas sua família e mais um vizinho ficaram na localidade. “Teve gente que conseguiu um pedaço de terra, outros desistiram e foram para cidade. Aí ficou só eu e Maria”.
Maria (que aparece nas imagens secundárias com uma bacia na cabeça e fazendo crochê), a quem dona Menininha faz questão de mencionar, chegou ao local no mesmo período que ela, mas morreu em 2013, sem concretizar o sonho de todos por ali: viver e trabalhar em cima de sua própria terra. “Disseram para gente que ela morreu de dengue. Mandaram uma ambulância para levar a Vilhena, mas ela morreu no caminho”, lembrou, com os olhos marejados. “O INCRA disse que se a gente saísse daqui ía perder nosso direito à terra, por isso continuamos esperando. Maria tinha problemas de saúde e ficar dentro do rio para lavar roupa, lavar louça todo dia, estraga a gente. Ela não aguentou”, conta.
Mesmo com o pouco espaço, além do sonho, Menininha cultiva mandioca, banana e cria algumas galinhas que vende para a vizinhança. O desejo de ter o que é dela é tão sério que, no trabalho diário, separa várias mudas de plantas para o cultivo no sítio próprio em um futuro que só o poder público pode prever.
De acordo com Gevenilha, há três anos o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) informou que ela foi contemplada com um lote no assentamento da antiga fazenda Santa Elina. “A gente não entende muito de documento e o único papel que me deram foi esse aqui [mostrando para a repórter]. Você vai ver meu nome aqui. Depois disso vieram aqui e me levaram lá onde é meu sítio. O lugar é lindo, do jeito que eu imaginava, mas tem gente morando lá”, conta ela.
Mesmo com um sorriso sincero, a frustração é nítida no rosto de Menininha. Ela completa que, até agora, desconhece qualquer ação para resolver seu caso, mesmo o INCRA informando sobre a necessidade de espera por solução. “Pelo menos hoje ainda é melhor que antes. Eu consegui me aposentar e dou graças a Deus por estar viva. Sempre fico pensando na Maria, que morreu sem realizar seu sonho. A gente só quer isso: um pedaço de terra”, sonha em voz alta dona Genevilha.