No local há, atualmente, apenas quatro menores e nenhum apto a ser adotado
 
 É comum ouvir, em Vilhena, que há muitos pais que aguardam anos na fila de espera para adotar uma criança, mesmo os abrigos estando cheios delas, que precisam de um lar. Mas são poucas as pessoas que conhecem a realidade de uma Casa de Acolhimento e os trâmites burocráticos que precisam ser esgotados até que um menor seja considerado apto para adoção.
 
Na maior cidade do Cone Sul, contrariando as expectativas de muitos, que acreditam que o local é cheio de crianças a espera de uma família, há no momento apenas quatro delas acolhidas judicialmente, com idades de 05 a 17 anos e nenhuma está disposta a adoção.
 
De acordo com Maximiliano Machado, mais conhecido como “Max”, coordenador da Casa de Acolhimento do município há 10 anos, o local não é o “lar” de nenhuma criança, independente de qual seja a situação que a leve a ser retirada dos pais, pois o órgão, como o nome já diz, é apenas um local que a acolhe provisoriamente os menores, até que a justiça determine seu destino e cada caso é um caso, podendo meninas e meinos ficarem no local por horas, dias ou até anos.
 
“O fato do menor estar sob a tutela do município não o coloca obrigatoriamente disposto a adoção, pois enquanto a criança é acolhida por nós, a justiça dá aos pais o direito de lutar pelo desacolhimento, independente do motivo que a tirou de seu lar, e essa luta pode se arrastar por muito tempo, como é caso de duas que estão aqui a cerca de 9 meses. Quando elas foram postas para adoção, os pais recorreram da decisão”, afirmou Max.
 
Como reza o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a preferência pela guarda, após esgotadas todas as possibilidades do desacolhimento pelos pais, são de parentes do menor, independente do grau. Só após passar por esse critério, o menor fica disponível para a adoção.
 
Outra questão que gera dúvida para os que aguardam na fila de espera é o fato de uma família de outra cidade ou Estado adotar um menor, sem que seja dada prioridade aos moradores do município onde a mesma reside.
 
No entanto, Max afirmou que a prioridade de adoção é dada certamente aos moradores do município, no entanto, há casos em que os pais não aceitam a perda guarda do menor e, para assegurar que estes não interfiram no processo de adoção, esta prioridade é vedada aos munícipes e dada a pais de outras comarcas. Assim, mantém-se uma distância que garanta a tranquilidade do menor e dos pais adotivos.
 
Já com relação aos motivos mais recorrentes que levam crianças a transitarem entre a unidade e seus lares, Max afirmou que não há uma regra, pois há época em que a Casa acolhe muitas crianças pelo fato dos pais serem usuários de drogas e, em outras, por agressão, como é a atual.
 
Com relação ao fato do menor completar a maioridade ainda em acolhimento, o coordenador relatou que, infelizmente, nesse caso a lei é clara e o portão tem que ser aberto para que este saia. No entanto, durante o tempo que permanece na unidade, a criança recebe oportunidade de capacitação profissional e de emprego.
 
“Nesses 10 anos que estou à frente da unidade, isso só aconteceu uma vez e foi com uma jovem, porém, ela era muito interessada: saiu daqui com trabalho fixo, hoje já conseguiu alugar sua casa e se mantém sozinha”, relatou.
 
Por fim, Max afirmou que a sociedade as vezes confunde o trabalho da Casa de Acolhimento com o do Conselho Tutelar, que é de fato quem tira a criança da tutela dos pais para assegurar seus direitos, restando à unidade apenas acolher este menor até que tudo seja resolvido judicialmente.
 
“Já tivemos casos de pais que vieram brigar aqui no portão, querendo o filho de volta, porém,  só nos coube informar que não somos nós que tiramos e nem devolvemos a criança aos responsáveis, apenas acolhemos para que, até que se resolvam as questões judiciais, esta seja protegida da situação que a colocou em risco”, concluiu Max.
 
Na unidade atualmente, os menores fazem quatro refeições por dia, recebem atendimento odontológico e pediátrico, realizam as atividades escolares, e não somente eles, mas também os funcionários, são assistidos por psicólogas.