Um dos aposentados se cuida; o outro não acredita na pandemia
 
Desde o início da crise sanitária devido à pandemia pelo novo Coronavírus, os idosos foram apontados como o principal grupo de risco, chegando a ser levantado, através de pesquisas, que nos estados Unidos, Itália, Espanha, Reino Unido e Suécia, 69% dos mortos, estavam na faixa etária acima de 60 anos.
 
Com o risco iminente de morte após a contaminação, os idosos tiveram que se adequar forçadamente às mudanças drásticas de rotina, que tem causado muito descontentamento, principalmente para aqueles que, antes da pandemia, tinham uma vida social ativa.
 
Visando saber como os filhos que residem com os pais já idosos e que não pararam de trabalhar, estão se virando para garantir a saúde física e mental deles, a reportagem do FOLHA DO SUL ON LINE entrevistou duas moradoras de Vilhena, que cuidam de seus pais que já passaram dos 80 anos e que vivenciam situações bem distintas, uma vez que um dos idosos não acredita na Covid-19 e nem aceita as novas regras de higiene; o outro, já é tão consciente que chega a brigar com a filha quando esta sai de casa sem necessidade, no ponto de vista dele.
 
Segundo Laira Zanata, que possui um viveiro no setor de chácaras de Vilhena e cuida do pai, José Xavier de Moraes, de 81 anos, desde que tiveram início as restrições no município, o idoso sempre foi muito consciente sobre a necessidade de se manter isolado devido a idade e por já ter sido submetido a uma cirurgia no coração.
 
Além de mudar totalmente sua rotina, uma vez que se dirigia até a cidade três vezes na semana para fazer uma “fezinha” nos jogos de loteria e de ter parado de viajar e até mesmo de namorar, seu José não abre mão do uso de máscaras quando vai ao banco a cada dois meses para sacar sua aposentadoria.
 
“Na verdade ele que puxa minha orelha quando eu saio de casa pra ir até a cidade”, brincou a filha com relação ao cuidado do pai.
 
José por sua vez, afirmou: “eu fico ‘mordido’ em não poder viajar, mas essa doença é muito séria e temos que tomar muito cuidado”.
 
Já a senhora Deni Bispo, que cuida do pai Antônio Bispo dos Santos, de 89 anos, e reside no bairro Jardim Eldorado, não goza da mesma facilidade nos cuidados com o idoso, pois ele, além de não aceitar que a filha more com ele no mesmo imóvel, não aceita usar máscaras, álcool gel e não acredita que a pandemia de fato exista.
 
Neste caso, Deni tem que redobrar os cuidados, pois além do idoso, cuida de dois netos no período da tarde. No entanto, ela alega que não permite que as crianças frequentem a casa do bisavô, que fica no mesmo quintal, e também passou a evitar realizar carícias no pai, já que a precisa sair para resolver seus interesses e os de Antônio.
 
Deni relatou ainda que cancelou as passagens que já tinha adquirido para viajar com o pai para Porto Velho, onde realizaria a troca da prótese que Antônio usa em uma da pernas, para evitar expô-lo ao risco de contaminação, já que o ancião se recusa a usar máscara.
 
“A rotina do meu pai não mudou muito, porque ele já possuía problemas de mobilidade, porém, passei a evitar receber visitas, já chegando a correr com alguns conhecidos daqui, porque ele não aceita se cuidar, então tenho que cuidar por ele”, afirmou Deni.
 
A realidade das duas mulheres não é diferente da de muitos moradores de Vilhena e dos demais municípios brasileiros. Além de não poderem parar de trabalhar durante a pandemia, elas ainda precisam cuidar e lidar com o gênio dos idosos, que muitas vezes podem ser dóceis, mas também podem ser bastante “rebeldes”.