A mãe tem 92 anos, a filha mais de 70, e é a primeira vez que ambas entram em um estúdio de fotografia. Logo depois, uma dona de casa tímida se redescobre em frente à câmera, surpreendendo-se com sua beleza no papel fotográfico. Momentos mais tarde, as sobrinhas preenchem as autorizações de uso de imagem para a tia, que não sabe escrever nem ler as palavras, mas compreende bem o significado dos retratos.

Histórias semelhantes a essas se repetiram mais de 100 vezes durante a realização do projeto “Retrato Solidário”, organizado pela turma noturna de fotografia do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) de Vilhena, Rondônia. Os 16 alunos instalaram dois estúdios na escola Cristo Rei, a principal de um grande bairro afastado do Centro da cidade, e convidaram moradores do local para serem fotografados gratuitamente.

O objetivo foi dar oportunidade a pessoas em situação de vulnerabilidade social de possuírem retratos profissionais. Boa parte dos retratados sequer possuía uma única fotografia. A simplicidade e alegria dos beneficiados tocaram os fotógrafos, que levaram impressora de alta qualidade, papel fotográfico e disposição de sobra para realizar voluntariamente a ação, das 7h às 19h do último dia 14 de março.

Curiosos com os muitos flashes que explodiam dentro da sala diminuta, curiosos espiavam pela porta todo o processo, ansiosos por seus 5 minutos de estrela em frente aos fundos infinitos. Crianças, jovens, idosos, homens e mulheres participaram do projeto. Ao todo cerca de 110 fotografias de tamanho A4 foram impressas para os beneficiados. 

Baseado no projeto americano “Help-Portrait”, criado pelo fotógrafo de celebridades Jeremy Cowart em 2009, o Retrato Solidário seguiu quatro princípios básicos: (1) Encontrar pessoas em necessidade, (2) Tirar retratos delas, (3) Imprimir as imagens e (4) Dar as fotos aos retratados. Esta ação social é realizada em dezenas de países e já mobilizou mais de dezenas de milhares de voluntários, entre fotógrafos, maquiadores, motoristas, editores e produtores.

A oportunidade foi importante também para os alunos treinarem suas habilidades de retrato e fotografia social, bem como técnicas de iluminação, direção de modelo e fotografia em estúdio. Acompanhadas pelo professor e fotógrafo Herbert Weil, os estudantes viveram um dia intenso de fotografia em estúdio e ação social. “Embora para nós, os fotógrafos, as fotos tenham sido importantes, para as pessoas beneficiadas talvez estes retratos irão marcar suas vidas, serão emoldurados e repassados durante décadas em suas famílias. Para alguns será a única fotografia de qualidade que possuirão, para outros terá sido a primeira e última vez na vida que entrara m em um estúdio profissional. Ficamos muito felizes em poder contribuir dessa forma para aquela comunidade”, analisa Herbert.

O aluno Marcos Luiz percebeu que muitas pessoas sequer acreditavam que teriam uma boa foto. “Uma senhora veio até o estúdio mas me disse que não queria ser fotografada porque era muito feia. Insisti e ela concordou. Depois de relaxar e sorrir para a câmera conseguimos uma foto bem legal dela e ela mesma se surpreendeu. Conseguimos melhorar a autoestima dela, isso não tem preço”, explica.

Da mesma forma, a estudante Sheila Monteiro, conta que a experiência foi tocante. “A fotografia social tem um poder muito grande. Foi muito bom passar o dia com aquelas pessoas simples e perceber que, apesar de ser um gesto simples, para eles era algo muito significativo. Suamos bastante, mas valeu muito a pena”, garante.

Israel de Carvalho também participou como fotógrafo voluntário e disse que a aula foi boa para treinar direção de modelo. “Eu havia esquecido como é difícil orientar as pessoas no estúdio. Vimos a teoria e treinamos algumas vezes no estúdio do curso, mas com modelos profissionais. No Retrato Solidário a situação foi outra: pessoas que não conheciam seu corpo nem suas posturas em frente à câmera. Foi um exercício prático muito bom, além de recompensador emocionalmente”, completa.