O prefeito de Vilhena, Zé Rover (PP), 43 anos, quebrou um paradigma ao derrotar o líder do clã mais importante da política regional, Melki Donadon (PHS), 45. Chegou ao poder apoiado por 14 partidos – uma fauna de políticos derrotados em eleições passadas que formaram uma espécie de “cooperativa dos sem-voto” para derrubar aquele que os ignorava.

Em onze meses de administração, Rover não conseguiu acomodar todos que apoiaram e, para piorar, ainda compôs seu staff com ex-adversários. Apesar das sucessivas crises políticas, ele se diz feliz e com auto-estima em dia, mesmo sabendo que ser prefeito lhe tira o tempo para um dos seus maiores prazeres: jogar futebol.

Gaúcho de Barra do Rio Azul, Rover foi um menino pobre: vendeu picolés nas ruas entre 8 e 13 anos, “até já querer namorar e ficar com vergonha de ser picolezeiro”. Ainda na infância, foi coroinha [ajudante do padre] e trabalhou numa construtora e fala com orgulho que aprendeu a fazer desenhos arquitetônicos.

Concluiu o ensino médio, casou-se aos 24 anos quando Lizângela tinha apenas 15 [namoravam já há dois]. Ele é católico; ela, evangélica. Outra peculiaridade da biografia do prefeito é ter um irmão hippie: Sérgio, 41. “Ele viaja o Brasil ganhando apenas o que precisa para sobreviver, é a filosofia dele não gostar de dinheiro”, afirma.    

 

- FOLHA: Prefeito, são quase onze meses de administração. Qual sua avaliação deste período?  

- ROVER: Tivemos muitas dificuldades, principalmente na área de saúde. Mas estamos melhorando o atendimento. Para isso, precisa contratar mais médicos, pois a demanda do município é cada dia maior. Para mim, 2009 foi um ano de experiências. Mas conquistamos coisas importantes como, por exemplo, a UTI. Em 2010, teremos outras novidades, como a farmácia popular, a maternidade e o hospital da criança.

 

- FOLHA: Qual foi o principal equívoco neste que o senhor chama de “ano de experiências”?

- ROVER: Errei várias vezes, mas tem o tipo de erro que a gente consegue acertar no momento seguinte. Tivemos aquele equívoco com o secretário de saúde [ele refere-se a Jacier Dias, nomeado e exonerado em dois meses]. Foi um momento de turbulência.

 

- FOLHA: Mas qual foi equívoco: ter nomeado Jacier como secretário ou tê-lo exonerado em tão curto espaço de tempo?

- ROVER: Nem uma coisa nem outra. Eu falo da falta de firmeza para mantê-lo no cargo quando ele brigou com alguns médicos. Ele estava certíssimo quando estava querendo bater de frente com os médicos. Mas conseguimos contornar tudo depois, bem devagarzinho, sem bater de frente. Hoje, o Jacier me entende e continua ajudando a saúde.

 

- FOLHA: O senhor sempre cita o vice-prefeito como seu grande auxiliar na condução do município. O senhor o apoiaria como candidato a deputado mesmo em sacrifício da sua própria administração?

- ROVER: A gente vai analisar muito. Ele é altamente capacitado para ser deputado, seja estadual ou federal. Mas é cedo para pensar nesta hipótese. A gente tem também os compromissos políticos que ele assumiu junto comigo. Eu não posso dizer se vou ou não vou apoiá-lo. Seria uma perda se ele fosse eleito deputado e deixasse a administração, acho que ele precisa ir até o final da gestão. Mas respeito o que estiver no coração dele. 

 

- FOLHA: Por que o senhor prestigia tantos militares, que compõem o seu staff, em detrimento de outras categorias?

- ROVER: Gosto do caminho mais obediente dos militares, cheio de regras. A saúde, por exemplo, é problemática e acho que o [coronel Agenor] de Carvalho tem conhecimento e não está no cargo para fazer a vontade de médicos. É preciso visão financeira e administrativa. Ele tem o caminho reto, é disciplinado. Gosto de militar por ser linha-dura e não enfraquecer. Graças ao trabalho dele, já economizamos muito dinheiro em plantões e horas-extras.

 

- FOLHA: Mas eu não me referi ao secretário de Saúde. São vários militares do Exército e da Polícia Militar comandando áreas estratégicas da sua administração.

- ROVER: É só questão de disciplina mesmo. A gente traça o trabalho, dentro de uma estratégia, e as coisas acontecem nas mãos deles.

 

- FOLHA: O senhor tem prestigiado muita gente que não esteve em seu palanque nas eleições de 2008. Comenta-se que sua administração está repleta de aliados dos Donadon, inclusive ocupando secretarias. Por quê?

- ROVER: São pessoas fundamentais, profissionais com conhecimento. As eleições acabam e as coisas vão acontecendo. Depois de seis meses de trabalho, vimos que era preciso valorizar gente com conhecimento. É o caso do Carlos Jorge [da Alpha Publicidade] e da Rita Marta [secretária de Comunicação], que têm vontade de trabalhar e não têm hora. É melhor deixar de ajudar quem estava do seu lado no palanque e favorecer quem vai lhe dar respaldo para beneficiar a população. Quem me ajudou no palanque não pode querer agora só ganhar o salário sem ter capacidade, não seria justo com a população.

 

- FOLHA: Como é sua relação com o ex-prefeito Melki Donadon?

- ROVER: Eu me dou muito bem com o deputado federal Natan. O primeiro impacto era de que por eu ter ganhado dos Donadon, a gente brigaria. A população sentiu que não existe essa possibilidade. Participamos de solenidades em conjunto e posso dizer que estou de bem com a Família Donadon. Mas, com o Melki não tenho relação nenhuma, mas não tenho nada contra ele. Acredito que ele saiba que é importante para a cidade a alternância de poder.

 

- FOLHA: Mas o senhor sempre votou no Melki, desde 1996. Não?

- ROVER: Votei nele duas vezes para prefeito e uma para senador. Fui companheiro da administração e votei nele. E também votei duas vezes no Marcos Donadon para deputado estadual.

 

- FOLHA: Prefeito, o senhor já pensa em 2012?

- ROVER: Sem dúvida, eu penso todo dia. Penso numa reeleição, mas quero sentir mais lá na frente se eu fiz um bom trabalho, senão jamais vou sair à reeleição, pois seria um suicídio. Mas eu quero ser prefeito por seis anos.

 

- FOLHA: Seis anos? Quer dizer que o senhor pensa em renunciar ao mandato no meio de um eventual segundo mandato para concorrer a outro cargo?
- ROVER: Exatamente.

 

- FOLHA: Para quê o senhor quer disputar?

- ROVER: Quero ser deputado federal, senador ou governador. Este é o caminho do político: você deve estar sempre visualizando algo a mais. Fui vereador oito meses, tive um pouquinho de conhecimento. Fiquei como primeiro suplente de deputado estadual e tive o conhecimento também da Assembleia, apesar de não ter tomado posse.

 

- FOLHA: Este ano foi o mais difícil da sua vida? O senhor sacrificou suas relações familiares para ser prefeito?

- ROVER: Foi bastante difícil, mas muito feliz. Estou bem com a minha auto-estima. Já tive tempos muito duros. Vendi picolé seis anos na rua. Uma vez, trabalhei um ano inteiro para conseguir comprar um par de sapatos.  Depois, eu trabalhava no comércio, a minha vida era simples. Eu conseguia jogar bola e ficar com a minha família. Agora preciso viajar todas as semanas e não dá mais para ir ao futebolzinho no Clube dos Estados e na sede da Aciv. O bom é que minha família entende e minha esposa [Lizângela Rover] trabalha muito e foi uma surpresa para mim o modo dela me ajudar; ela está feliz como secretária [de Assistência Social]. Ainda não consegui me orientar nestes dez meses, mas agora as coisas começam a ficar mais resolvidas, já garantimos os recursos para 2010 em Brasília e não vou precisar viajar tanto. Quero voltar ao futebol pelo menos uma vez por semana.

 

- FOLHA: E a vida empresarial foi prejudicada?

- ROVER: Sem dúvida. Não consigo falar em vida empresarial. O supermercado eu arrendei o imóvel; vendi as instalações e mercadorias. O Hotel Rover meus pais estão tocando e eu tenho uma retirada mensal de R$ 5 mil. Minha dedicação hoje é 100% à prefeitura.

 

- FOLHA: Se o senhor ganha menos financeiramente hoje, qual a sua motivação para estar prefeito?

- ROVER: Desde novo eu queria ser político. Quando saí para vereador, em 2004, e para deputado estadual, em 2006, começaram a me falar para eu ser candidato a prefeito. Acho que foi coisa do destino, porque eu sempre achava que não iria conseguir, mas Deus me colocou nesta vida política. Tenho 23 anos de Vilhena e comecei no comércio ganhando pouco, com uma mercearia, e sempre tinha aquela vontade de mexer com política. Fui crescendo no comércio, construindo prédio, comprando fazenda e o hotel. Aí teve uma hora em que fiquei enjoado de ficar enfiado dentro do supermercado e ficava sonhando com alguma coisa para mim. Aí sempre puxava na memória aquele desejo antigo de ser político, mudar de vida. Deus me proporcionou isso, apesar de eu ganhar bem menos agora. Mas minha auto-estima agora é maior. Eu e minha esposa estamos felizes e o que ganhamos dá para gente viver muito bem, mas não deixo de pensar em futuramente montar mais um hotel. 

 

- FOLHA: Para terminar: muitos dizem que o senhor é um mero figurante e quem dá as cartas na sua administração é o advogado Carlos Eduardo Pietrobon. O senhor se sente diminuído e desrespeitado em função do comentário de que é ele quem manda de fato?

- ROVER: Ele nunca se intrometeu na administração. O Pietrobon é meu advogado particular, falo muito com ele e ele me ajuda desde a campanha para deputado, em 2006. Ele articulou comigo para que o então deputado Chico Paraíba fosse nomeado para o Tribunal de Contas e, assim, abrisse caminho para eu tomar posse na Assembleia, mas aí acabei sedo eleito prefeito e nem precisou. Conseguimos os votos de 18 deputados para garantir a minha entrada. Ele nunca definiu nada por mim, apenas me ajuda na área jurídica. Não fico irritado quando falam que sou um pau-mandado dele, porque não é verdade. Sou amigo dele e do filho dele, o Bruno [ex-secretário de Terras, preso dentro da prefeitura sob a acusação de pedir propina para agilizar um processo na sua pasta].