Nesta semana, em que Vilhena comemora 32 anos de emancipação político-administrativa, a FOLHA entrevistou o controvertido Vitório Alexandre Abrão. Natural de Andradina (SP), Vitório chegou a Vilhena aos 21 anos e, em 1971, aos 33; em 82, foi o primeiro prefeito eleito e cassado do município.
Hoje, com 59 anos, Abrão é uma lenda viva: protagoniza “causos” hilários como aquele em que aparece pintando cupins com cal para dizer que eram seus bois ou apresentando sacas de palha como arroz. Entre 2002 e 2004, ficou preso, ainda em conseqüência dos tempos em que era prefeito.
Vitório não concluiu nenhum curso superior, mas cursou direito e medicina. Considerado um político “vivo”, pai de cinco filhos, casado pela segunda vez e às voltas com a abertura de um frigorífico em Comodoro (MT), o ex-prefeito tem uma oratória fluente, é carismático e dono de uma memória prodigiosa. Confira a entrevista:
- FOLHA: Como era Vilhena quando o senhor chegou aqui?
- VITÓRIO: Vilhena precisa ter duas histórias: aquela do Marechal Rondon e do posto telegráfico que foi a base do município, onde vivia a Família Zonoecê; e depois a odisséia dos pioneiros que fizeram a cidade, começando pelas imediações de onde é hoje o Posto Nacional. Eu cheguei aqui no final de 1971, quando havia entre 10 e 15 casas e cerca de 200 moradores e já percebia que Vilhena nasceu com esta tendência de ser cidade-pólo. Ainda mais quando o Incra criou, em 77, o projeto de colonização de Colorado e, depois, Cerejeiras, Cabixi e a abertura da estrada entre Vilhena e Juína, nos ligando ao norte do Mato Grosso. Neste tempo, Vilhena tinha duas avenidas: 200 metros de Major Amarante e 200 metros de Marechal Rondon. O restante era só cerrado. Depois a Major foi estendida até o Posto São José e começaram a surgir os estabelecimentos comerciais e o Ciclo da Madeira. Quando fui eleito prefeito, a cidade tinha 130 serrarias e viveu um surto muito grande de desenvolvimento. Fui a primeira pessoa a fazer lavoura mecanizada na Amazônia e comecei, já em 77, a desbravar o cerrado. A madeira começou a decair a partir de 86 e ficou a agricultura. Hoje, é uma cidade-pólo estudantil e industrial.
- FOLHA: Como é que o senhor surgiu no cenário político?
- VITÓRIO: Meu pai havia vendido as propriedades em Três Lagoas (MS) e resolvemos vir para cá. Eu vim na frente. Criei o primeiro hospital particular, promovi as primeiras festas, o primeiro rodeio onde é a igreja-matriz e foi aí que fui me tornando popular. Queriam me indicar administrador do distrito, mas não aceitei. Eu queria ser eleito prefeito. Desde estudante, sempre tive uma certa liderança. Cheguei a Vilhena já com o sonho de ser prefeito. Político você não fabrica. Temos exemplo em Vilhena de político fabricado, que é um desastre. Hoje estou desfiliado de partido e não quero cargo, mas participo ativamente, ajudando meus amigos.
- FOLHA: Como é que foi a primeira campanha eleitoral em Vilhena?
- VITÓRIO: Foi violenta. Era Vitório Abrão e o povo de um lado e o os empresários do outro lado. Nas minhas carreatas, só havia carros velhos. Nas dos outros, só carros do ano. Isso deixou mágoas neles, que começaram a me perseguir. A primeira denúncia que recebi contra mim como prefeito foi de um sujeito que dizia que a filha dele era fantasma na prefeitura. E era mesmo. Mas era a maior esportista [Vitório não quis citar o nome dela] que tínhamos em Vilhena e ela queria estudar fora. O pai dela dizia que mulher não era feita para estudar e eu arrumei o emprego para ela ir embora, estudar e trazer mérito para Vilhena. Quando foram me cassar, não me defendi, deixei eles [os vereadores] agirem. Aquilo não foi uma sessão legislativa, foi um circo, e eu não sou palhaço para participar de espetáculo circo.
- FOLHA: O senhor tem rancor destes antigos adversários?
- VITÓRIO: Não, são meus amigos. Não guardo mágoa de ninguém. O Ilário Bodanese, por exemplo, que era presidente da Câmara naquele tempo e articulou minha cassação, depois não foi eleito nem para vereador. O que a gente faz na vida, fica gravado. Eu fui preso, processado, humilhado e sofro perseguições absurdas até hoje por parte do Ministério Público. Mas sou querido e procurado pelas pessoas.
- FOLHA: O senhor desviou muitos recursos? Foi possível ficar rico como prefeito?
- VITÓRIO: Não houve desvio algum, mas fui processado 36 vezes. Fui absolvido em 35 deles. Depois, já em 2002, fui preso durante um ano e cinco meses porque perdi o prazo de me defender em apenas um dos processos. Chega a ser cômico o que a justiça me fez. Eu era primário e fui condenado à cadeia porque teria beneficiado uma empreiteira em R$ 6 mil, em valores atualizados, correspondentes à reforma da praça. Eu não fiquei rico sendo prefeito. Pelo contrário. Perdi tudo naquela época.
- FOLHA: Do que o senhor se arrepende?
- VITÓRIO: Eu me arrependo de ter sido prefeito. Trouxe sofrimento para meus pais e filhos. A coisa mais triste que vivi foi receber a visita da minha mãe, então com 72 anos, todas as sextas-feiras na cadeia.
- FOLHA: O senhor queria ser governador de Rondônia?
- VITÓRIO: Quando eu fui prefeito, meu nome estava sempre nos jornais e revistas. Era a imprensa que dizia que eu seria candidato a governador em 86 para suceder o Coronel Jorge Teixeira. Isso criou problemas para mim. Quando foi feita a intervenção no município, fui tentar falar com o governador, e ele já não quis me receber. Deixei claro ao braço-direito dele, José Renato da Frota Ushôa, que eu não era candidato, para que ficassem tranqüilos. Fui à televisão e afirmei isso. Mas o Roberto Jotão, então prefeito de Ji-Paraná, havia brigado com o governador e disse que o povo tinha que acabar com o coronelismo em Rondônia e me eleger governador. Isso me isolou ainda mais naquele momento, e me prejudicou.
- FOLHA: De Vitório Abrão a Zé Rover: qual paralelo se pode estabelecer?
- VITÓRIO: Lugar de empresário é na empresa, lugar de político é na política. Um, visa o débito e o crédito; o outro, o saldo social. Comigo, a cidade teve um desenvolvimento fenomenal, mas fiquei apenas um ano e oito meses. Depois, vieram Elcio Rossi, Lourivaldo Ruttmann e Ademar Suckel, e a cidade parou. Com a vinda de Melki Donadon, em 97, a cidade reagiu. Agora, temos o Rover que saiu do comércio para ser político. E ele não entende disso. O jogo é bruto. Eu fui cassado porque não entendia que tinha que ficar prestando favores para os vereadores se quisesse exercer o mandato de prefeito. A corrupção não está no Poder Executivo, mas sim no Legislativo. Eu não me rendi, não passei cargo para vereador nenhum. Eu comi dez meses em marmita, correndo, vendo tudo de perto. O Zé Rover tem boa-índole, mas é muito mal assessorado. Ele se elegeu com um grupo muito grande e fica esperando o apoio de todos. Mas este tempo de apoiá-lo já acabou. Agora, no segundo ano, precisa constituir uma boa equipe para ter sucesso.
- FOLHA: O senhor acha que o Melki Donadon voltará a ser prefeito?
- VITÓRIO: Eu acredito que sim. Ele tem uma bagagem muito grande e fez muito pela nossa cidade.
- FOLHA: O grande “calcanhar de Aquiles” da atual administração é a saúde. O que senhor pensa deste setor?
- VITÓRIO: Conseguimos o recurso e montamos o Hospital Regional (HR), com cem leitos, depois de um acordo com o governador Jorge Teixeira de que ele seria tocado pelo Estado. A prefeitura recebia a folha de pagamento e os recursos integrais do Estado para a manutenção do HR. Aí veio o prefeito Lourivaldo Ruttmann, em 1989, e viu aquele volume todo de dinheiro e achou que a prefeitura que deveria administrar o HR. Taí hoje o desastre da municipalização que ele arquitetou. O HR tem que ser tocado pelo Governo do Estado. Se um dia eu voltasse a ser prefeito, a primeira coisa que eu faria era fechar o HR. Criaria seis policlínicas para atender o meu povo e entregaria a chave deste elefante-branco que é o Regional para o governador.
- FOLHA: Qual o pior e qual o melhor prefeito que Vilhena teve?
- VITÓRIO: (Risos). Prefiro não tratar disso. Todo mundo tem seus méritos.
- FOLHA: Existem muitos comentários sobre sua suposta esperteza. Por exemplo: conta-se que o senhor pintava cupins de branco e sobrevoava sua fazenda dizendo que eram bois. Outros diziam que o senhor apresentava depósitos cheios de sacas de palha mentindo que era tudo arroz, para garantir financiamentos bancários para suas propriedades. Seriam lendas tais histórias ou senhor é mesmo espertalhão?
- VITÓRIO: Naquele tempo eu colhi 130 mil sacas de arroz. Aí falavam que aquilo não era arroz, que era tudo palha. O que acho gozado é que aqui não tinha máquina de arroz, ou seja: onde é que eu ia arranjar palha? Toda cidade pequena tem isso. São comentários sujos. Sobre os cupins, chega ser cômico. Eu tinha 4 mil cabeças de bois e três fazendas. Mas em política é assim: você vira ladrão, viado, leproso e corno. O coronel Jorge Teixeira brincava dizendo que se nas Olimpíadas houvesse a modalidade “fofoca”, era só enviar “atletas vilhenenses” (risos) que o Brasil traria as medalhas de ouro, prata e bronze.