Municípios localizados na área de influência da BR-163 - a principal via de acesso para os grãos, que liga o Mato Grosso aos portos do Pará - ou ainda com forte potencial de expansão agrícola ultrapassaram no ano passado a valorização média registrada no restante do país.

 

Levantamento realizado pela consultoria Informa Economics FNP, a pedido do Valor, mostra que, enquanto o hectare de terra agrícola subiu a uma taxa média de 16% no Brasil entre 2013 e 2014, a valorização beirou os 100% em algumas localidades do Pará e atingiu 30% em regiões de Mato Grosso, o maior produtor e exportador nacional de grãos.

 

 

Estendendo o período histórico para os últimos quatro anos, os Estados do chamado "Arco Norte" superaram a média brasileira de alta de 100,9% no hectare. Tome-se como exemplo o Amazonas, o Estado com maior área florestal do país. Entre 2010 e 2014, o hectare de terra destinada à agricultura subiu expressivos 228%, segundo cálculos da consultoria. Mato Grosso teve um incremento de 136,7% no mesmo período. Pará, de 148%. Rondônia registrou uma alta de 108% no hectare agrícola, enquanto Roraima valorizou 96%.

 

A alta expressiva se deve aos projetos de infraestrutura logística em curso, sobretudo no Pará, mas também ao fato de que há limitações de ordem ambiental e até de disponibilidade de terra apta ao plantio, o que explica a guinada de preços em Rondônia.

 

Entre todas os municípios e suas áreas de influência no Norte, Santarém e Belterra, no Pará, são os que mais se destacaram na trajetória de preços mais altos. Em ambos os municípios, o hectare de terra agrícola subiu 92% entre 2013 e 2014. Nesse caso, a perspectiva de uma logística melhor para o escoamento de grãos tem sido o principal "drive" para a precificação da terra.

 

Além da finalização do asfaltamento da BR-163 e as estações de transbordo de cargas em construção no rio Tapajós, novos terminais graneleiros estão previstos para os portos de Barcarena, Santarém e Outeiro. "Essas obras sinalizam que a logística para o escoamento vai melhorar, e isso incentiva o plantio de grãos", diz o analista Márcio Perin, da Informa Economics FNP.

 

Segundo o governo paraense, Santarém tem hoje 100 mil hectares plantados, mas há ainda milhares de hectares de terra degradada e áreas de pastagens com potencial para conversão.

 

"Foi um aumento de preços ao longo do ano, em função dos anúncios de infraestrutura", diz Perin, referindo-se a Santarém e Belterra. Ele lembra, porém, que a valorização no Pará se deve também a uma base de comparação baixa - um hectare em Mato Grosso vale muito mais que nos outros Estados do "Arco Norte", e por esse motivo a variação percentual nos demais tende a ser maior.

 

Em Rondônia, a falta de áreas aptas à agricultura e restrições ambientais também empurram as cotações do hectare. Mas não são apenas as áreas para soja que têm subido. As pastagens registraram uma valorização ainda mais acentuada - um movimento natural quando a oferta de terra passa a ser limitada, diz Perin.

 

Em Vilhena, por exemplo, o hectare para agricultura subiu de R$ 7 mil em 2010 para R$ 13 mil em 2014 - já a área de pastagem foi de R$ 2,4 mil para R$ 8,1 mil.

 

"As áreas de pastagens estão se valorizando rapidamente, mais até que as de soja", observa o analista. "Quem quer expandir a plantação, olha agora para pastagens. Elas ficaram cobiçadas".

 

Para atender à crescente demanda por alimentos, produtores e ruralistas em geral afirmam que a expansão da produção se dará por meio de pastagens degradadas - e não sobre a floresta. Estimativas variadas apontam para a existência de algo entre 30 milhões e 50 milhões de hectares degradados ou de pastagens no país que poderiam ser em convertidos em lavoura. Por esse motivo, os preços dessas terras devem sofrer variação acentuada daqui pra frente.