“Não existem palavras que vão ser capazes de aliviar a dor de sua perda”
Diante do momento sombrio que Vilhena tem presenciado com o número de mortes diárias por conta da pandemia de Covid-19, batendo recordes de casos e de sepultamentos, a reportagem do FOLHA DO SUL ON LINE conversou com a psicóloga Diene Nepomuceno, para trazer informações à comunidade sobre somo lidar com o luto.
A psicóloga, que atualmente atende os servidores da linha de frente do enfrentamento à Covid-19 respondeu as questões mais pertinentes sobre a morte, que apesar de assustadora é um processo natural, e deu dicas de como as pessoas que estão em volta daquelas que sofrem com a perda podem acolher o enlutado para que não se sinta sozinho, mas sem impedir que ele viva essa experiência em sua totalidade.
Confira a entrevista:
FOLHA - Por que falar sobre luto é tão importante?
DIENE – Faz parte da nossa vida vivenciarmos momentos de perda e de grande sofrimento, mas como não temos uma cultura que nos dá permissão para falar sobre a morte com naturalidade, acabamos criando um tabu e, quando passamos por um momento de perda, não sabemos como agir. Falar sobre a morte nos dá a oportunidade de aprender como lidar, como acolher e como deixar esse momento um pouco menos difícil.
FOLHA - Como acolher um enlutado?
DIENE - Antes de qualquer coisa, quando acolhemos uma pessoa enlutada temos que ter consciência de que não existem palavras que vão ser capazes de aliviar a dor de sua perda, mas existem comportamentos que podemos adotar que vão fazer com que essa pessoa se sinta amparada, validada e acolhida. Evite dizer coisas do tipo: “Você tem que ser forte pelos seus filhos”, “Não chore, ele não ia gostar de te ver assim”, pois isso reprime a expressão de pesar deste enlutado. seu silêncio e escuta empática são fundamentais nessa hora. Permita que ela expresse livremente a sua dor, que chore, que fale sobre seu ente querido quantas vezes sentir necessidade.
Demonstre que você está vendo seu sofrimento e coloque-se a disposição para estar ao lado dela. Seja proativo, vá ao mercado, limpe a casa, lave a louça, pois em muitos momentos ela não terá ânimo nem para sair da cama ou cozinhar.
FOLHA- Quais são as reações normais do luto?
DIENE – É bastante comum o enlutado sentir muita tristeza, choro frequente, ter dificuldades para dormir ou se alimentar, falta de energia e secura na boca, pensar o tempo todo no falecido, sentir raiva, culpa, ansiedade, solidão, fadiga, desamparo, descrença, (“Isso não aconteceu”, “Não pode ser verdade”), dificuldade na concentração (vai buscar sabão e esquece da louça), preocupação com o morto (“Onde ele está agora”, “Vou ao cemitério tirar ele lá de dentro”), sensação de que o falecido está por perto, escuta ele chamando, tem a impressão de te-lô visto em meio a outras pessoas, sensação de que está enlouquecendo. Imagine como é difícil passar por todas essas reações e ainda ser obrigado a levar a vida como se nada tivesse acontecido, tendo que ser produtivo.
FOLHA - Devemos contar para crianças e idosos que alguém morreu?
Diene – SIM. É muito comum acreditarmos que eles não compreendem ou não aguentarão lidar com a perda, mas acredite: dizer a verdade e permitir que as crianças e idosos acompanhem todo esse processo será muito importante para que tenham condições de compreender e elaborar essa perda de maneira saudável. Não recomendamos dizer que o falecido “foi viajar”, “que foi morar com papai do céu”, “que virou estrelinha”, pois a criança imagina que foi abandonada, que papai do céu é ruim por ter levado seu pai. Diga a verdade, com calma, em um ambiente reservado e esteja disponível para acolher seu sofrimento e verificar se é um desejo dela escrever uma cartinha, fazer um desenho e também participar de toda a despedida.
FOLHA - Devemos tomar ou oferecer calmantes?
DIENE – Não recomendamos. Sabemos que a dor da perda é enorme, mas ingerir ou ofertar calmantes às pessoas que você considera que não vão aguentar lidar com a morte as impede de ver o corpo para constatar a morte e de se despedir adequadamente de seu ente querido. Talvez ela queira dizer algo, pedir perdão e isso não será possível estando “dopada”.
FOLHA - Como lidar com os comentários sem noção?
DIENE- Na maioria das vezes esses comentários vêm de pessoas muito próximas, e acredite, por falta de conhecimento e empatia, muitas delas não conseguem perceber que estão sendo inadequadas. Com certeza você já deve ter escutado coisas do tipo: ”E aí, como foi que aconteceu? Nossa!”, ”Já decidiu o que você vai fazer com as coisas dele?”, “Se for doar algo, fulano vai querer.”, “ Não fica assim não, você é jovem, depois vai ter mais filhos”.
Nessa hora você vai precisar ser muito sincera com você mesma e usar sua assertividade para sinalizar a essa pessoa que este comentário está sendo inoportuno: “Fulano, eu não gostaria de falar sobre isso agora, agradeço a sua preocupação, mas podemos mudar de assunto?”, ou apenas se afaste.
FOLHA - O que fazer com os pertences dos entes que morreram?
DIENE - Aconselho que os pertences do falecido sejam guardados por no mínimo três meses ou até que a família se sinta preparada para se desfazer deles. Se optarem por doá-los, que seja para pessoas distantes e que não terão contato, para evitar que visualizem esses pertences sendo usados por outras pessoas.
É essencial que seja compartilhado com todos os membros da família e amigos mais próximos a opção de escolher algo para guardar como recordação. É muito comum acreditarmos que retirar todos os pertences do falecido do ambiente fará com que essa dor seja amenizada mais rapidamente, no entanto a presença desses pertences tem a função de facilitar o seu choro e demais expressões de pesar. Uma opção seria criar uma caixinha de memórias com os pertences que não forem doados.
FOLHA – Por que é tão Importante o velório e os rituais de despedidas? Como fazer agora na pandemia que não pode ter muitas pessoas?
DIENE - Sabemos que na pandemia os velórios estão mais restritos e rápidos, mas ainda assim eles não perderam a sua importância. Realizar a despedida e homenagear nossos entes queridos é essencial para nos ajudar a assimilar a perda. Nesse momento não podemos velar como tradicionalmente fazíamos, mas podemos usar nossa criatividade para sentir que estamos próximos de nossos familiares e amigos por meio de vídeochamadas, mensagens nas redes sociais (de apoio aos familiares), cultos e missas virtuais, memoriais com fotos e objetos do falecido. O importante é que seja algo que tenha um significado para a família e que os faça sentir que esse momento foi valorizado.
Autor:
Leir Freitas
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 26 de Março de 2021, às 10:42