Quase toda noite é a mesma coisa: Um grupo de cidadãos, a maioria mulheres de origem humilde, pegam colchões e lençóis e vão para o posto de saúde do setor BNH, em Cerejeiras. Lá, passam a noite na intenção de pegar uma ficha que será entregue por um atendente somente no dia seguinte, às 7h00.
Ao pegar a ficha pela manhã, o atendimento com o médico da rede pública não será no mesmo dia e nem no mesmo local. A ficha em questão é somente um “agendamento”, ou seja, é necessária uma segunda fila para ser atendido pelos especialistas, especialmente os da área de ortopedia e oftalmologia. A consulta com o médico será em outro posto de saúde, na área central da cidade.
Para as mulheres que precisam fazer uma ultrassonografia pela rede pública, também é preciso dormir na mesma fila, num dia da semana determinado para esse procedimento.
Essa situação acontece três vezes por semana em Cerejeiras e foi testemunhada pela reportagem do FOLHA DO SUL ON LINE na noite (às 21h30m) desta quarta-feira, 02, no bairro BNH.
Os pacientes dormem no postinho para receber a ficha de agendamento. Quando chegam ao posto, por volta das 19h00, eles assinam uma folha de papel, providenciada entre eles mesmos. No dia seguinte, somente 25 fichas serão distribuídas pela rede pública. Após pegar a senha, os pacientes vão para suas casas.
“Aqui não tem banheiro e nem água. A água a gente traz de casa. Já o banheiro não tem jeito, né?”, disse uma mulher, de aparentemente uns 35 anos de idade, reclamando da estrutura física do postinho.
Um homem, de uns 30 anos, disse que iria passar a noite no posto porque a filha dele, uma adolescente, precisa passar pelo oculista. Para aguentar a pernoite, o cidadão pegou o carro emprestado de um amigo. “Vou dormir dentro do carro, pois a noite é muito longa para quem está aqui”, disse, ascendendo um cigarro e dando baforadas.
Ao que parece, nem todos os cidadãos que pernoitam por atendimento estão descontentes com a situação. Uma mulher, de uns 25 anos ou pouco mais, disse, embrulhando-se num lençol: “Temos de pôr as mãos para o céu e agradecer porque pelo menos temos médico. Até pouco tempo atrás nem isso tinha”.
O FOLHA DO SUL ON LINE está aberto para qualquer resposta do poder público municipal cerejeirense sobre o caso. Os cidadãos que dormem na fila e foram entrevistados pela reportagem pediram para não serem identificados.