“Presídio, cadeia nenhuma ressocializa ninguém. Lá dentro a sua mente é voltada para a crime”
 
Apenados do Centro de Ressocialização Cone Sul, em Vilhena, participam de um projeto que tem como principal objetivo a ressocialização pelo trabalho. O grupo iniciou ontem, quarta-feira 20, trabalhos de limpeza do pátio e manutenção na Escola Municipal Felipe Rocha.
 
A reportagem do FOLHA DO SUL ON LINE conversou sobre projeto com o policial penal Silvano Alves Pessoa, que acompanhava o grupo. Ouviu também a diretora da escola, Patrícia Valéria Ferreira da Silva; e colheu depoimentos de apenados que integram o projeto.
  
O policial penal explicou que, para a escolha dos presos que irão integrar o grupo de trabalho, é formada uma comissão que analisa uma série de itens, entre eles o comportamento, e define se aquele candidato está apto ou não para fazer parte do grupo.
 
Ele explicou também que as entidades interessadas em firmar parceria para receber a mão de obra do grupo devem procurar o Judiciário, via ofício, requerendo o trabalho dos apenados. Silvano afirmou que há, na equipe, profissionais como mecânico, soldador, calheiro, pedreiro, carpinteiro e eletricista.
 
“A parte mais importante desse projeto é a ressocialização do preso, com vista ao retorno dele à sociedade. Esse projeto mostra a realidade para eles, mostra como é o convívio, como deve se portar em sociedade. Esse projeto oferece uma melhoria de vida para eles, com cursos e trabalhos”, disse o policial penal, ressaltando que também são oferecidos cursos dentro da unidade prisional pelo CEEJA, para quem ainda não concluiu o ensino fundamental e médio; e profissionalizantes pelo IFRO e SENAI.
 
“É primordial o apenado ter interesse. Precisa partir dele a vontade de mudar. Com essa decisão, eles vão sendo avaliados pela comissão e evoluindo até chegar ao ponto de integrar a equipe de trabalho, como essa que está aqui hoje”, ponderou Silvano.
 
Ao todo, conforme o policial penal, incluindo os apenados que atuam na oficina que atende órgãos como Secretaria Municipal de Agricultura, de Obras e DER, e também os que atuam na horta, são 38 apenados no projeto. Somados aos que atuam dentro do próprio presídio, o número de presos que desenvolvem alguma atividade passa de 60, em um universo de 350 que cumprem pena no Presídio Cone Sul. 
 
“O nosso projeto visa tirar o apenado do mundo do crime e trazê-lo para a sociedade, e o Judiciário e o MP são importantíssimos neste quesito, e estão nos dando total apoio”, afirmou Silvano, que disse ainda que sem a parceria com esses dois órgãos não seria possível a concretização do projeto. 
 
Para Patrícia Valéria Ferreira da Silva, que está na direção da Escola Felipe Rocha desde 2018, o projeto é de suma importância, tanto para a ressocialização dos apenados, quanto para a sociedade entender que são humanos e sujeitos ao erro.
 
“Esse projeto mostra pra eles que eles têm valor, que eles têm capacidade de sair de lá e conseguir trabalho em qualquer lugar da sociedade. Esse projeto oferece também as capacitações através de outras parcerias e,  como gestora da escola, eu só tenho agradecer, primeiramente ao Doutor Adriano (Lima Toldo), que nos atendeu quando eu solicitei através de um ofício a parceria com os apenados para que pudéssemos fazer esses trabalhos aqui na escola”, disse a diretora ,reforçando: “Eu peço e espero que seja levado para outros lugares, outras escolas, porque o município de Vilhena só tem a ganhar com a o trabalho, com o profissionalismo desses meninos. Eles fazem um serviço de qualidade”, disse a diretora.
 
Ontem, o grupo realizou trabalho de limpeza do pátio e s trabalhos continuam ainda por mais alguns dias com a previsão, inclusive, da construção de um quiosque que, segundo a diretora, será usado pelos alunos para leitura.
 
Um dos apenados que integra o grupo é o Douglas, de 28 anos, 8 deles vividos atrás das grades. Ele contou que, antes de conhecer projeto, era um dos muitos presos que seguem uma rotina de ir da cela para o banho de sol e de volta para a cela.
 
“Pra mim esse projeto gerou muita coisa de bom. Antes desse projeto, eu era um apenado que só vivia ali. Só saía para o banho de sol. Depois que fui selecionado para esse projeto, depois de quase 5 anos preso, eu comecei a sair, respirar ar diferente. Hoje eu posso sair, trabalhar ao ar livre. Saio do presídio e volto com as minhas próprias pernas”, contou.
 
Douglas contou ainda que, por causa do projeto, ele viu a sua família se reaproximar dele. “Hoje a minha família me enxerga com outros olhos. Antes eles não acreditavam em mim. Não tinham mais esperança em mim. Hoje eles me parabenizam, vêm me ver, porque estão vendo uma mudança em mim”, contou Douglas, que recentemente concluiu o curso de auxiliar de agronomia.
 
Murilo, de 27 anos, é outro inserido no projeto. Conforme relatou, ele ficou em liberdade entre 2015 e 2016, mas acabou retornando à cadeia. “Quando você está com a ‘pulseira’ no pé, a sociedade te vê de outra forma e muitas vezes não confia de botar você em uma obra ou numa firma por causa disso”, argumentou e prosseguiu o relato: “Aí o caminho que eu encontrei, que tava as portas abertas, era o mundo do crime, o mundo das drogas, e foi onde eu caí em tentação, voltei para as coisas erradas”, afirmou.
 
De acordo com Murilo, quando retornou para a prisão, ele começou a frequentar os cultos e mudou o seu comportamento. Essa mudança o levou a ter a oportunidade de fazer parte do projeto que, assegura, também mudou a sua forma de pensar.
 
“Nós estamos dando o nosso melhor para que esse projeto cresça muito mais para que nós saiamos e que outros apenados possam pagar a sua pena trabalhando. É só aqui fora, com projeto como esse, que a ressocialização pode acontecer. Porque presídio, cadeia nenhuma ressocializa ninguém. Lá dentro a sua mente é voltada para a crime. Mas, quando você tem a oportunidade de estar num projeto desse, de você participar, de você conviver com a sociedade, você vê que tem valor; e que a maneira de viver não é aquela maneira no crime, que a maneira certa é você trabalhar, ter o respeito da sociedade e ser tratado como cidadão”, pontuou Murilo, antes de concluir: “Graças a Deus nós temos essa oportunidade e estamos abraçando com braço forte pra vencer, e acredito que através desse projeto nós vamos ter muitas oportunidades”.
 
O policial penal Silvano, aproveitou para fazer um pedido aos empresários. “Eu gostaria de chamar todos os empresários e a sociedade para que nos ajude. As nossas ferramentas são feitas lá mesmo no presídio, e temos esse déficit de ferramentas. Então, quem puder nos ajudar, desde ferramentas como enxadas e martelos, a ferramentas para mecânica, tudo, seremos muito gratos. Não pedimos para nós, pedimos para o projeto”, finalizou.