Mesmo ré confessa, a autora desse crime terrível contra Tim não é
somente alguém que a gente pode esquecer. Em um caso como esses a justiça faz
pouco sentido se é feita de imediato, quase construindo o maior muro possível entre o nosso bem e o mal
que nos cerca, porque ele pode estar entre nós. Vânia talvez não seja a única.
Parte do município tem se perguntado sobre a necessidade de um laudo médico e
psicológico completo pra que se entenda o que aconteceu. E muita gente não
entendeu, mas é importante se saber que, pro Estado, ele é um dos últimos
elementos em falta pra que se dê cabo ao trânsito em julgado da sentença que
condenará Vânia Basílio, se for o caso, à pena que qualquer outro homicídio
doloso implicaria.
Imagino que boa parte não saiba como funciona o Direito numa
República de respeito, mas posso explicar: todo jurista ou agente de execução
da lei – um policial militar, por exemplo – entende ou pode sentir em algum
momento da vida o que desenvolve um assassino: motivações políticas, interesses
pessoais, transtorno de personalidade (desde a antissocial até a esquizotípica),
vulnerabilidade social etc. Por mais explorado que o profissional seja pelo Estado,
o que muitas vezes envolve má remuneração e péssimas condições de trabalho, o
jurista ou policial lida com perfis e perfis todos os dias. Isso é fato. E
quando esse sujeito vê alguém que passa pela delegacia ou por uma promotoria
com olhos estranhos e um discurso insano, desses únicos mesmo, podem ter
certeza de que ele vai sentir algo errado ali.
Não é vidência, jogo de cartas ou vontade de safar a pessoa. É tão somente um policial ou jurista lendo linguagens que a gente não domina. E
entendamos: até então a ré era alguém que nunca se viu ou foi vista matando,
então a gente nem consegue imaginar tão bem assim o porquê do crime. Por isso,
até pra realmente fazermos justiça pelo Tim é preciso que aguardemos por um
laudo. Pode não ser isso, mas talvez sejamos nós o mal por trás da visão que Vânia
vem construindo sobre a vida do outro pra estar tão apta a matar alguém. Num
estado como Rondônia onde cadáveres são simplesmente objetos e o obituário é
mera vitrine, num país como o Brasil em que violência é quase sinônimo de ordem e em uma sociedade civil tão protofascista que resolve pequenos
problemas do cotidiano com truculência e palavras inimagináveis, o sociopata ou então alguém de risco
semelhante só pode fazer escola mesmo, tipo matilha apanhando sem comida.
Muita gente sabe como um sociopata do alto empresariado disputa
por cargos: pode ser terrível a ponto de envolver pessoas de vários níveis numa
cultura de competitividade, medo e violência. E aqueles sociopatas do cotidiano
que degolam gatos com a mesma naturalidade de quando balançam o berço dos
filhos? Não que a gente precise dar um cookie
de chocolate para Vânia ou fazer massagem em suas costas com óleos essenciais se esse for mesmo seu
problema, especialmente quando já se sabe que sociopatas fora de controle
precisam ser afastados da sociedade
para cumprimento de pena, estudos de caso, programas de pesquisa etc. Uma
sentença assim é extremamente necessária. Mas a gente precisa extrair, sim, uma
exemplaridade do caso, mesmo que no fim das contas o aprendizado sobre perfis de
risco seja simplesmente mais um e Vânia seja mesmo essa pessoa quase sempre bacana
que um dia parou de se colocar no lugar do outro de propósito para cometer um
crime terrível. Porque nesse caso ele tem de ser julgado como tal.
De toda forma, vez por outra ainda peço às pessoas da cidade que
respeitem o trabalho de quem está investigando o caso. É sempre bom lembrarmos
que os executores da lei são também conhecimento
científico que anda e circula pelo mundo. Não um bando de pessoas
irresponsáveis que vão atender aos gritos de uma população em tormento sem
antes terminar o seu trabalho dentro dos protocolos. Uma colega da área que
dirige o Noticiando RO tem recebido, sim, várias críticas nos últimos tempos, mas
foi bastante ética quando chamou Vânia de suspeita
em vez de culpada, afinal está nada
mais e nada menos que cumprindo a nossa Constituição. Ninguém sensato quer constatar
mais pra frente que usou a linguagem mais burra
possível para descrever um caso tão complexo assim, como tanta gente quer,
antes mesmo de ter acesso a todos os dados que faltam sobre a pessoa em ficha.
Se a autora do crime for mesmo esquizotípica ou sociopata, por exemplo, será
obrigação das mídias e do Estado um repasse adequado de informações sobre seu
perfil para toda a cidade. Temos que entender essa problemática.
Não passava pela minha cabeça a ideia de explicar isso tantas
vezes, mas, infelizmente, venho sendo um dos poucos a bater na mesma tecla:
jornalismo tem que ser feito assim mesmo. Não adianta piar. De um lado é
importante respeitarmos o sofrimento de quem vive a morte do próprio filho em um
crime tão terrível assim, então ninguém pode dar a si mesmo o direito de questionar
o luto da família de Tim e discordar do que ela pensa ou deixa de pensar.
Ninguém mesmo. Mas nós todos que olhamos para o caso tão de fora deveríamos sentar
e esperar por mais informações enquanto ainda houver trabalho de gente grande
em andamento. Porque ele só funciona com respeito ao conhecimento e ao trabalho
dos profissionais envolvidos na investigação do caso. E a imprensa tem de ser
crítica, investindo mais tempo em pesquisa e bem menos nessa busca pelos melhores
rótulos sem sentido sobre o crime,
incluindo esse conceito tão redutivo de viúva
negra que nada acrescentou quando todos já sabíamos que foi ela mesma a
assassina. Se um homem mata a parceira ele não é chamado nem mesmo de feminicida pelas mídias: só assassino. Por
que os tratamentos precisam ser diferentes? Mais vale pra Vilhena o fato de que
precisamos saber quem foi Vânia Basílio. Isso sim é fazer justiça por Tim, pois
impede que casos assim se repitam.
*Thales
H. Pimenta
Jornalista e professor vinculado ao
Departamento de Jornalismo (DEJOR) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR)