“Se ele fosse condenado pelos crimes que lhe imputaram, a pena passaria de 40 anos de prisão”
Esteve na redação do FOLHA DO SUL ON LINE na tarde de ontem (quinta-feira, 30), o auxiliar de pavimentação de 29 anos, que passou quase um ano na cadeia por um crime que não cometeu. Ele foi acusado de estuprar a própria filha, uma bebezinha de apenas 8 meses, caso publicado pelo FOLHA DO SUL ON LINE (LEMBRE AQUI).
Na conversa com a reportagem, o homem absolvido no Tribunal de Justiça contou que todo o seu sofrimento começou em 2020, durante churrasco na residência de um tio da esposa na cidade de Colorado do Oeste. Durante o evento, a então parceira teria sofrido uma crise de ciúmes e chegado até a cortar o pescoço dele com uma lâmina de barbear, quando ambos voltaram para casa.
Após essa agressão, o entrevistado se mudou para sua cidade natal, Vilhena, disposto a refazer a vida. Só ficou sabendo que tinha sido denunciado pela ex quando recebeu, depois de quase 5 anos, uma mensagem enviada por um policial para que fosse para depor na Polícia Civil. A atual esposa o alertou e ele pediu a um advogado que fosse verificar o motivo da convocação.
Quando o criminalista Jacier Dias teve acesso ao inquérito instaurado pelo Ministério Público, com pedido de prisão por vários crimes, inclusive sexuais, explicou que o cliente tinha duas opções: fugir ou se defender na justiça. O acusado escolheu a segunda alternativa.
Preso em novembro do ano passado, o entrevistado passou os 11 meses na cadeia de Colorado do Oeste, onde corria a ação judicial contra ele, e duas semanas atrás, foi enviado para o Presídio Cone Sul, unidade prisional instalada nos arredores de Vilhena.
Em ambos os estabelecimentos penais, o homem viveu momentos de tensão, ao lembrar qual é o castigo que os apenados costumam aplicar contra estupradores -ainda mais quem é denunciado por supostamente violentar a própria filha bebê.
Comportando-se de maneira que lhe permitisse conviver com os colegas de cela sem ser abusado, o vilhenense, no entanto, não escapou da humilhação de ser tratado como autor de um crime infame que não havia cometido.
ESPOSA “ARMOU CASINHA”
Segundo o ex-presidiário, a primeira esposa o acusou por vingança, mas assim que passou a fazer as acusações em audiências na justiça, ela entrou em contradição, tanto que as denúncias de estupro e ameaça já caíram em primeira instância. “Se fosse condenado pelos crimes que lhe imputaram, a pena passaria de 40 anos de prisão”, avalia Jacier.
O RECURSO
As provas apresentadas pela defesa na apelação ao TJ contrastavam com a precariedade das acusações feitas na denúncia inicial, tanto que o procurador de Justiça, que representa o Ministério Público em segunda instância, pediu a absolvição do réu.
E foi justamente essa postura que serviu para que o acusado reforçasse sua alegação de inocência junto aos outros presos, que passaram a acreditar em sua versão. Eles comemoraram quando o alvará de soltura em favor do inocentado chegou ao presídio.
CENA DE FILME
“Parecia uma daquelas cenas de filme americano: quando souberam que iam me soltar, os outros presos gritaram e comemoraram batendo nas grades. Me emocionei com a solidariedade sendo demonstrada pelas pessoas mais improváveis”, revelou o entrevistado.
ALÍVIO E EUFORIA
Ao deixar a prisão e ser recebido pela família, em Vilhena, o protagonista de tamanha tensão chegou a se emocionar, admitindo que o desfecho de seu caso poderia ter virado tragédia no cárcere.
O acusado agradeceu o apoio da família e se lembrou especialmente do padrasto, que sempre acreditou em sua versão e bancou as despesas para que ele se defendesse na justiça.
Ele fez uma reflexão final, ao conversar com a reportagem: “lá a gente percebe que existem pessoas presas sem dever, como eu. Se esses casos forem investigados a fundo, alguns dos que hoje são considerados culpados, ganham a liberdade”.
Autor:
Da redação
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 31 de Outubro de 2025, às 08:13