O caramujo africano, praga que já se alastrou por diversas regiões do país, é o mais recente aliado na busca por formas comercialmente viáveis de transformar a celulose das plantas em álcool combustível.

O caramujo, que é encontrado em várias regiões de Vilhena, tem causado prejuízo e preocupação, mas poucas medidas foram adotadas, até agora, para combatê-lo com eficiência

Pesquisadores do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) identificaram no aparelho digestivo do molusco, que se alimenta de vegetais, fungos que produzem celulases, enzimas com capacidade de quebrar moléculas de celulose, produzindo açúcares. Feito isso, o processo convencional de fermentação pode ser utilizado para se obter etanol.

Segundo Wanderley de Souza, diretor de programas do Inmetro e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a atividade da enzima recém-descoberta é superior às comercializadas hoje.

"Em laboratório, a atividade dessa enzima é de 20% a 30% superior à da enzima produzida pelo fungo trichoderma reesei", diz o pesquisador.

A descoberta do Inmetro é importante porque o potencial do etanol de segunda geração - como é chamado o produto obtido de celulose - é grande, mas sua produção, complexa.

"O principal gargalo é transformar biomassa, como bagaço da cana-de-açúcar, em monossacarídeo como glicose. É preciso quebrar a parede da célula vegetal em açúcar e isso é uma grande dificuldade."

Segundo Souza, a parede da célula vegetal contém compostos, entre os quais a lignina, que a protege e dificulta o processo.

"Os tratamentos enzimáticos ou com ácidos precisam ser drásticos para que a quebra ocorra, o que torna o custo do processo elevado", diz o acadêmico.

Em sua busca por enzimas que ajudem a transformar celulose em açúcares, o Inmetro optou por investigar pragas naturais que se alimentam de vegetais.

A estratégia se mostrou correta quando os pesquisadores começaram a estudar o caramujo africano. Segundo Souza, a celulose é inteiramente quebrada no aparelho digestivo do animal devido a presença de bactérias e fungos que lá vivem.

Maior produtividade - A utilização não só do caldo da cana-de-açúcar na produção de etanol mas também do bagaço da planta seria um avanço importante para a produção nacional de etanol. Do modo como é feita hoje, a fabricação de álcool e açúcar gera uma grande sobra de bagaço de cana.

Souza observa que um dos destinos desse resíduo é ser queimado para produzir energia, mas com um baixo aproveitamento econômico.

Segundo o pesquisador, a enzima encontrada no aparelho digestivo do caramujo africano poderá no mínimo dobrar a produção de etanol obtida em uma mesma área de plantio. "Essa biomassa é uma grande fonte de açúcar. Uma vez obtido esse açúcar é só submetê-lo ao processo de produção de etanol já existente", afirma.

Os pesquisadores do Inmetro estudam agora formas de tornar a descoberta economicamente viável. Para isso, é necessário conseguir que o fungo identificado presente dentro do caramujo cresça satisfatoriamente fora do organismo do animal.

O próximo passo será testar o produto no Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), da Petrobras. "Queremos comparar o desempenho da nossa enzima com a que é utilizada na planta piloto deles", afirma o pesquisador. "Apenas se eles não tiverem interesse é que procuraremos outra empresa."

Souza avalia que, se tudo correr conforme o previsto, o uso comercial da substância pode ter início em aproximadamente dois anos. Trabalhos para melhorar o achado já estão em curso.

"Já temos um grupo manipulando o fungo geneticamente para fazer com que aumente a quantidade da enzima que ele produz", afirma Souza.

Propriedade intelectual - De tão novo, o fungo encontrado pelo Inmetro ainda não tem nome. E apesar do potencial da descoberta, a enzima isolada não deve ser patenteada no Brasil.

"O isolamento de um fungo admite patente em qualquer país do mundo. Porém, a Lei de Patentes do Brasil não permite que se faça o depósito de um fungo como esse porque ele já existe na natureza, não foi criado pelos pesquisadores", diz Souza. A saída, de acordo com o acadêmico, será fazer o depósito da descoberta no exterior.