Quem vê a empolgação em campo e o tom professoral do técnico de futebol Ivair Censi, 43 anos, não imagina sua história tortuosa. Ele ingressou muito jovem na carreira de atleta, aos 15 anos. Não demorou a descambar para o alcoolismo. “Naquele tempo, um jogador só era bem aceito pelo grupo se gostasse de beber e aprontar. Hoje o conceito é o contrário deste comportamento reprovável”, relembra.
Aos 26 anos, o paranaense da cidade de Pérola do Oeste já havia passado por vários times. Chegou a capitão do Paraná e, naquele 1994, uma lesão na panturrilha o tirou de campo. “Mas, antes de ficar doente eu já tinha aquela sensação de vazio. Havia me transformado num alcoólatra. Bebia muito e, no dia seguinte, vinha a falta de motivação. Eu precisava beber de novo para esquecer da noite passada. Além disso, sofria de artrose e de problemas cardíacos; tenho duas válvulas no coração”, afirma Ivair.
À época, o técnico já era casado com Eliete (o casal não tem filho). Vivia às voltas com as brigas intermináveis. Mas o pior era o desânimo para viver. “Participei, junto com o time, de um culto na Igreja Quadrangular. Bastou apenas uma participação no culto para eu me converter ao Senhor Jesus e desde então tudo mudou completamente”, afiança.
Fundou sua própria denominação: Igreja Evangélica Ministério Luz do Mundo, que hoje conta três templos. “Estamos instalados no Paraná e Santa Catarina, mas tenho o projeto de instalar nossa igreja aqui em Rondônia. Meu projeto é um dia poder apenas pastorear”.
Nos 16 anos como técnico, Ivair tem no currículo a passagem por 18 times. Foi campeão com o Francisco Beltrão, Galo do Maringá, Prudentópolis e, agora, o VEC. Mas, como bom evangélico, ele credita todo o mérito à ação de Deus. “Toda a honra e toda a glória é dEle”, faz questão de acentuar.
A vida de Ivair Censi é marcada pelas provações. Aqui mesmo em Vilhena, no início da temporada de 2009 do Campeonato Estadual, foi preciso “muita oração” para suportar os perrengues. “Deus que mandou resistir até o fim. Diminuíram meu salário em 40% e por várias vezes os jogadores ameaçaram deixar o time por causa dos salários atrasados. Enquanto isso, eu recebia propostas de times bem estruturados de São Paulo, Mato Grosso e Maranhão, para deixar o VEC. Com isso, eu poderia levar comigo boa parte dos jogadores e desfalcar o time local, mas não era o que Deus queria”, afirma. Censi explica que só não deixou Vilhena “para não prejudicar a cidade”. Para ele, “é preciso pôr o coração em todos os projetos”.
Ivair aguentou o tranco em meio à crise vivida pelo VEC graças à lembrança de uma passagem bíblica. “Apeguei-me à história de Gideão, que conduziu seu exército de 32 mil israelitas para o campo de conflito contra 135 mil midianitas. Mas Deus estava à frente”. O técnico não enfrentou apenas a falta de recursos para manter o time. “Não havia estrutura. Fiz às vezes de psicólogo e pai. Cheguei a aplicar injeções nos atletas. Sou, além de técnico, o preparador físico. Nossa equipe não tem médico fixo”.
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JESUS CRISTO EM CAMPO?
Será que o Todo Poderoso se envolve mesmo em pelejas futebolísticas, assumindo um dos lados da competição? A equipe do Gênus por acaso não seria constituída de “filhos de Deus”? Agora quem responde não é o técnico de futebol, mas sim o pastor Ivair Censi.
“Todo aquele é que age impulsionado pelo sangue de Jesus é campeão. Toda vez que falo em futebol ao vivo nas emissoras de rádio e de TV, evoco o nome de Deus. É a oportunidade de falar a uma multidão sobre as maravilhas do Nosso Senhor. Com isso, muitos torcedores, jogadores e profissionais da imprensa já foram convertidos”.
Mas, observa Censi, “nem sempre, Deus se mostra nas vitórias aparentes”. Ele exemplifica que há uma década seu pai foi assassinado num sítio em Pérola do Oeste, município minúsculo, com seus 7 mil habitantes, na divisa do Brasil com a Argentina. Na época, o técnico já era pastor. O pai morreu durante uma tocaia, por questões políticas, e até hoje os criminosos não foram presos. Por que Deus permitiu a tragédia familiar?
Ivair Censi é objetivo na resposta: “Deus não permitiu que Jesus morresse na cruz para salvar a humanidade? Com a morte de meu pai, toda a minha família também se converteu ao Evangelho”.
A influência das manifestações religiosas é marcante no futebol brasileiro. O Pai Nosso nos vestiários (independente da crença do jogador), camisas louvando Jesus, além e devoções afro-brasileiras, invadem os campos de todo Brasil. Na opinião de Ivair Censi, a fé potencializa o desempenho esportivo.
A religião tem lugar de destaque na vida desses profissionais, porque é um meio de ascensão instável, num país de grande desigualdade social. Muitos sonham com o profissionalismo, mas é um caminho difícil, a que poucos têm acesso, precisando passar por diversas provações. “Os profissionais da área sofrem grande pressão psicológica e física e muitas vezes não têm estrutura suficiente para suportar as dificuldades, de onde vem a necessidade de apoio religioso”.