*Dimas Ferreira
 
Tem sido recorrente, na seção de comentários dos veículos que publicam óbitos provocados pela Covid-19, o mesmo questionamento: “ninguém morre mais de outras doenças? Só disso?”
 
Quando a manifestação decorre da indignação frente a uma situação que nos assusta e fragiliza como seres humanos, é compreensível. Quando vem desta enfadonha polarização ideológica, nem merece resposta...
 
A morte, por si só, já é uma tragédia. Numa situação em que, aos familiares, é negado o direito básico de se despedir do ente querido que partiu, a dor é ainda maior. Plenamente justificável, portanto, a revolta de quem passa por isso, com o que está acontecendo.
 
Posso falar apenas por mim, embora conheça vários colegas de profissão cujo sentimento é exatamente o mesmo: não ficamos alegres em noticiar mortes, sejam elas provocadas por acidentes, infartos, brigas ou qualquer outra motivação.
 
Assim como médicos, que tratam os doentes, mas não torcem para que mais pessoas fiquem enfermas, também cumprimos apenas a missão a que nos propomos: informar, sem ficar tecendo comentários nas reportagens. Aqui, neste artigo de opinião, assinado pelo autor, vocês estão vendo a exceção à regra.
 
Têm toda razão as pessoas que argumentam que, na maioria dos casos de vítimas da Covid-19, os pacientes sucumbiram porque já enfrentavam outros problemas de saúde. Isso também já foi explicado centenas de vezes pela imprensa. Não quer dizer que pessoas saudáveis estão livres da morte pelo vírus, mas são minoria. É fato!
 
A explicação para quem merece: no Jornalismo, mortes em geral são noticiadas segundo o critério da relevância, seja do fato ou da vítima. Por exemplo, se morre alguém de infarto no Hospital Regional, o evento só se torna público se a pessoa era muito conhecida, admirada ou odiada pela sociedade. Na maioria dos casos, cometemos este pecado: desnivelamos seres humanos que Deus criou iguais. Reconhecer que assim agimos é melhor que inventar uma desculpa hipócrita e esfarrapada.
 
Também para aqueles que questionam a situação de boa fé, outra explicação: ainda que a pessoa vitimada venha enfrentando problemas graves de saúde, o que a levaria, inevitavelmente, à cova, se ela foi contaminada pelo novo Coronavírus, é isso que vai constar em seu Atestado de Óbito. Esse protocolo foi definido pelas autoridades. Nós apenas seguimos a regra ao noticiar os casos.
 
Mal comparando, e já peço desculpas pela comparação, usada apenas porque é absolutamente necessária para melhor compreensão: se um paciente com câncer terminal perde a vida em acidente de ambulância a caminho do hospital, esse último fato é que vai constar como “causa mortis”. Duro explicar assim, mas é como funciona...
 
Finalizo conclamando a todos para que façam sua parte nesta luta, que é de todos nós: cuidem-se!
 
Dimas Ferreira é editor do FOLHA DO SUL ON LINE