A conquista de Seramar é daquelas histórias que transcendem números e colocam a superação como protagonista
Por telefone, o FOLHA DO SUL ON LINE entrevistou, na manhã desta quinta-feira, 14, o engenheiro sanitarista Jamal Daud, que morou em Vilhena entre os anos de 2001 e 2010, e há 15 anos vive com os filhos em Rondonópolis, cidade de Mato Grosso a cerca de 200 km de Cuiabá.
Descendente de palestinos, Jamal é protagonista de uma comovente história de superação: após perder a esposa, Raja, vítima de Covid-19, ele incentivou a filha caçula, Seramar, a estudar, e a garota alcançou um feito que repercutiu na imprensa do Estado vizinho: ela obteve a maior nota do Enem em Mato Grosso no ano de 2024.
Além da companheira, que tinha 53 anos na época, e cujo falecimento foi noticiado por este site (CONFIRA AQUI), Jamal também perdeu o filho Nafez Antônio Daud, que tinha 30 anos (também engenheiro), ao contrair o mesmo vírus que havia levado sua mãe.
Hoje trabalhando na SANEAR (Serviço de Saneamento Ambiental de Rondonópolis), Daud fala com orgulho do desempenho da filha, que após a conquista, agora tenta realizar o sonho de ingressar em uma faculdade de medicina.
LEIA ABAIXO, na íntegra, a reportagem publicada pelo site “Primeira Hora”, de Rondonópolis, mostrando o esforço da jovem Seramar, que tem dois tios comerciantes que ainda moram em Vilhena, onde ambos são muito conhecidos.
A jovem Seramar Alveni Daud, de 18 anos, atingiu a maior nota de Mato Grosso no Enem 2024, ao alcançar 980 pontos na redação, e agora sonha cursar Medicina para salvar vidas. Sua conquista vem após tragédias familiares nos últimos anos, com perda da mãe e de um irmão, durante a pandemia de Covid-19.
A conquista de Seramar é daquelas histórias que transcendem números e colocam a superação como protagonista. Nascida em Vilhena e atualmente moradora de Rondonópolis, em Mato Grosso, a estudante é a síntese de uma trajetória marcada por resiliência, disciplina e um propósito claro: estudar Medicina para salvar vidas.
O caminho até esse feito começou muito antes da aplicação da prova. Seramar fez o ensino fundamental no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Rondonópolis, e concluiu o ensino médio no La Salle.
Em 2024, iniciou o cursinho preparatório no Lavoisier, mantendo uma rotina intensa: aulas das 7h às 12h na escola e, à tarde, das 14h às 19h10, no cursinho, de segunda a sexta-feira. Aos fins de semana, revisava conteúdos, resolvia exercícios e se dedicava a um caderno especial com repertórios e eixos temáticos para a redação, cada um acompanhado de contextualizações curtas e precisas.
O desempenho excepcional nos estudos, contudo, tem um pano de fundo emocional doloroso. Quando tinha 14 anos, Seramar perdeu a mãe, Raja Daud, em 18 de abril de 2021, e menos de um mês depois, em 3 de maio, o irmão, Nafez Antônio Daud, ambos vítimas da pandemia.
A tragédia abalou profundamente a família, composta por quatro irmãos — Munif, Nafez, Aziza Luíza e Seramar. Foi o pai, Jamal Daud, quem, com amor e determinação, manteve a unidade familiar e deu à caçula o suporte necessário para seguir estudando e sonhando.
A estudante relembra que em 2023, no segundo ano do ensino médio, fez o Enem sem qualquer estratégia definida, sem saber administrar o tempo para equilibrar a redação e a prova objetiva. Acabou deixando para passar o texto a limpo na folha oficial nos minutos finais e só conseguiu escrever sete linhas — o que levou à anulação do texto e à nota zero.
“No ano seguinte, alcançar 980 foi uma surpresa muito boa, fruto de muito trabalho e esforço, junto com a minha professora de redação Bruna Annjos, do meu cursinho, que me ensinou a escrever sem me engessar em modelos prontos. Ela me mostrou como usar meus próprios recursos e estilo para fazer um texto de qualidade”, relata.
Apesar da nota expressiva e do reconhecimento como a maior pontuação na redação do Enem 2024 em Mato Grosso, Seramar ainda não conseguiu vaga na universidade pública. Programas como o Fies e o Prouni exigem comprovação de renda familiar de até três salários mínimos — critério no qual sua família não se enquadra.
Determinada a alcançar o objetivo, ela segue firme no cursinho preparatório e mantém a rotina intensa de estudos, com a mesma dedicação que a levou ao desempenho histórico. O resultado também rendeu um reconhecimento nacional. No dia 11 de agosto, Seramar esteve em Brasília para participar do evento de premiação do Ministério da Educação (MEC), realizado no Palácio do Planalto.
Na ocasião, foi presenteada com um smartphone iPhone 13 e um iPad de nona geração como reconhecimento pelo desempenho obtido na redação do Enem. “Foi um trabalho em conjunto, meu e dela (a professora). Tirar essa nota foi uma surpresa boa tanto para mim quanto para ela. Nós duas ficamos muito felizes e foi algo surpreendente”, afirma.
Agora, ela projeta os próximos passos com a meta de, em breve, transformar sua história de perda em uma trajetória de cura e esperança para outros, alcançando o sonho de vestir o jaleco de médica.
Autor:
Da redação
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 14 de Agosto de 2025, às 14:57