Segundo as investigações da PF, Francisco pagou US$ 22 mil para entrar ilegalmente nos Estados Unidos, em 2018
A empresária Maria Helena de Sousa Netto Costa (FOTO), presa em Goiânia (GO) pela Polícia Federal por suspeita de chefiar um esquema de migração ilegal para os Estados Unidos, disse em áudios ter experiência em soltar imigrantes ilegais presos nos Estados Unidos. Ela é suspeita de ser a líder de um grupo que agiu entre 2018 e 2023, estimou a polícia.
“Os meninos foram presos. Eu consigo tirá-los. Tiro, sempre tiro...todos que ficam eu tiro. Eu tiro para depois receber, né? Eu quero saber se você quer que eu tiro...que eu já providencio isso”, disse a suspeita, em um dos áudios aos quais a TV Anhanguera, afiliada da Globo em Goiás teve acesso com exclusividade.
Maria Helena é sogra do governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB). Segundo a Polícia Federal, ele e a esposa dele não são investigados. Em nota, o governador afirmou que os fatos são investigados desde meados dos anos 2000 e não têm relação com ele, sua esposa ou o Governo de Goiás. Em nota, a defesa de Maria Helena considerou a prisão desnecessária e afirmou que aguarda o acesso ao processo para fazer a análise técnica do caso.
O áudio se refere à prisão de um homem de Rondônia que contratou os serviços para migração ilegal, chamado Francisco Firmino de Souza Filho. Durante a travessia do México para os Estados Unidos, a empresária chegou a encaminhar mensagens do próprio "coiote" para a esposa de Francisco. "Coiotes" são os responsáveis por levar imigrantes ilegalmente através da fronteira do México para os Estados Unidos.
Nessas mensagens, o coiote avisa que estão enfrentando grande perigo e que não poderiam seguir o percurso porque havia muita polícia na fronteira.
Segundo as investigações da PF, Francisco pagou US$ 22 mil para entrar ilegalmente nos Estados Unidos, em 2018. Em depoimento à polícia de Colorado Oeste, em Rondônia, a esposa dele, Rosemilda Maria Marquinis, disse que o marido pretendia conseguir um emprego nos Estados Unidos.
Em outra conversa, que faz parte do inquérito, Maria Helena dá notícias sobre Francisco à esposa dele.
"Rosi, eu...eu acho que eles não atravessaram ontem não, porque ele não falou nada. Eu acho que ele tá esperando mais gente, só pode ser. Porque atravessar só dois... lá só tem os dois. Mas... a gente não pode apertar eles, Rosi...não adianta. Se apertar ele joga eles na imigração, é pior ainda", afirmou.
Em seguida, ela garante à Rosemilda que o caminho escolhido pelo grupo chefiado por ela, para atravessar a fronteira, era o mais seguro: “É um caminho que você anda, mas chega. Eu sempre falo 'quando eu ponho o meu dinheiro na frente, o caminho que eu ponho é esse'. Porque esse caminho chega 97%. E no outro chega 70%".
COMPROVANTE DE PAGAMENTO
A TV Anhanguera também teve acesso a um comprovante de pagamento que é uma das provas que ligam Francisco a Maria Helena. Ele se refere a uma transferência bancária feita por ele para a suspeita quando já estava na cidade de Harrison, no estado de Arkansas. O pagamento foi feito no dia 25 de março de 2019. No documento, também aparece o endereço de Maria Helena, no Setor Jaó, em Goiânia.
O valor movimentado não aparece na foto do comprovante, mas, segundo a investigação, é uma das parcelas para pagar os US$ 3.100 que custaram as passagens aéreas de Francisco, à época. A despesa foi bancada pela organização criminosa.
O inquérito, que já foi encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), aponta que era Maria Helena quem mantinha contato direto com os "coiotes".
Além da contratação, ela também:
• efetivava a compra de passagens aéreas;
• viabilizava a contratação de advogados em caso de detenção pelo serviço de imigração.
CINCO GRUPOS
Segundo as investigações, Maria Helena é suspeita de chefiar um dos cinco grupos criminosos especializados em enviar brasileiros ilegalmente para os Estados Unidos. Ela entrou na mira da Polícia Federal em 2022, quando o seu nome foi citado por brasileiros abordados por agentes da PF no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Maria Helena e as outras três pessoas presas na capital goiana, cujas identidades não foram divulgadas pela polícia, são suspeitas de três crimes: promoção de migração ilegal, lavagem de dinheiro e organização criminosa. De acordo com a polícia, se forem condenadas, as penas podem chegar a 23 anos de prisão.
As quebras de sigilo telefônico e das contas bancárias dos investigados mostraram que de 2018 a 2023 as cinco quadrilhas movimentaram R$ 240 milhões. Desse total, R$ 45 milhões estavam em poder da organização criminosa chefiada por Maria Helena, informou a PF.
No Amapá, outros dois chefes que não foram encontrados foram incluídos na lista de procurados da Interpol, relatou a PF.
Os presos passaram por audiência de custódia e foram levados para o Complexo Prisional.
Para entrar ilegalmente nos Estados Unidos, cada brasileiro desembolsava, em média, US$ 20 mil. Em cinco anos, 477 pessoas foram enviadas para o território norte-americano, mas os investigadores acreditam que esse número pode ser maior. O grupo chefiado por Maria Helena teria sido responsável pela travessia de 155 brasileiros.
COMO AGIAM OS GRUPOS
As investigações foram realizadas, principalmente, no período de 2018 a 2023.
A polícia informou que os grupos atuavam de forma estruturada. Eles são suspeitos de organizar toda a logística da viagem, desde a saída do Brasil até a passagem por países como México e Panamá, até a chegada aos Estados Unidos.
Segundo a PF, os grupos tinham integrantes em outros estados e também no exterior, que eram responsáveis por:
• suporte logístico
• recepção de migrantes
• intermediação financeira das operações ilícitas
Além disso, as investigações também apontaram o uso de empresas de fachada, laranjas e esquemas de lavagem de dinheiro para ocultar e disfarçar a origem ilícita do dinheiro movimentado.
Autor:
Da redação
Fonte:
G1/GO
Publicado em 08 de Maio de 2026, às 17:01