O jornal O Globo, do Rio, que enviou uma equipe a Rondônia na semana passada, acompanhando a visita do presidente Luís Inácio Lula da Silva, publicou reportagem alertando para os problemas de segurança na Usina Hidrelétrica de Santo Antônio. Abaixo, a íntegra da matéria:
A usina de Santo Antônio, do complexo do Rio Madeira, visitada na sexta-feira pelo presidente Lula, é comparada a um barril de pólvora pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) de Rondônia. Há 40 dias, o canteiro de obras é vigiado 24 horas por uma guarnição da Polícia Militar para evitar protestos dos trabalhadores. São cerca de 11,5 mil funcionários. Os procuradores veem risco de enfrentamento entre PMs e operários, e temem uma tragédia. "Há risco claro de uma situação de violência incontrolável. O receio é que ocorra um motim e até chacina".
O consórcio que faz a obra, formado por Odebrecht e Andrade Gutierrez, foi à Justiça para garantir a presença dos policiais na portaria do canteiro de obras. A medida ocorreu após protestos dos funcionários contra más condições de trabalho, dos alojamento e dos baixos salários. Eles apedrejaram ônibus do consórcio. As empresas dizem que o comando da PM negou apoio e, por isso, decidiram recorrer à Justiça do Trabalho, que determinou a presença dos policiais. Para o MPT, isso caracteriza uso indevido de segurança pública em favor de empresa privada.
- Há risco claro de uma situação de violência incontrolável. O receio é que ocorra um motim e até chacina. Não se pode destacar uma força pública para defender área privada. São empresas com alto poder econômico que deveriam utilizar meios próprios - disse a procuradora Silvana Suckow, que recorreu da decisão da juíza federal Izabel de Melo Moura, que deu liminar às empresas.
Os PMs vigiam a entrada da usina a contragosto. Argumentam que a segurança de
Porto Velho está desguarnecida e que, se houver confronto na usina, o número de policiais será insuficiente, o que pode levar a disparos e mortes. Diariamente, três carros da PM, com nove homens, ficam na frente da empresa. Em relatórios da Secretaria de Segurança Pública, no processo, as autoridades relatam provocações com os policiais, como xingamentos e frases como "vocês vão se dar mal" e "vamos dinamitar vocês". A PM diz que os trabalhadores veem os policiais como inimigos, e que há o risco de fazerem reféns.
O consórcio diz que precisa da PM porque armazena 200 toneladas de explosivos no canteiro e 1,5 milhão de litros de combustível, com "grave risco de dano coletivo, ambiental e para a vida das pessoas". O diretor-superintendente, José Bonifácio Pinto Júnior, disse que os funcionários que criaram problemas foram demitidos, e que 99% dos trabalhadores não se envolvem em confusões. Para ele, é uma obrigação da polícia e do estado garantir a segurança. “Pagamos impostos”.