Cinco anos de detenção em presídios federais não fizeram o traficante Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, perder seu poder sobre o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. A PF (Polícia Federal) investiga o papel dos advogados do traficante na manutenção de seus contatos com os "comandados" ainda em liberdade.
Réu em um processo que tramita no Tribunal de Justiça no Rio, um dos advogados de Marcinho VP, Alberto Santos Pereira, é acusado pelo Ministério Público estadual de "colaborar com grupo, organização, associação destinados à produção/tráfico de drogas".
Pereira, defensor do traficante desde 1999, prestou, há dois meses, depoimento na Polícia Federal para explicar um bilhete apreendido com ele após visita ao criminoso, em 2008.
Na ocasião, Marcinho VP cumpria pena no presídio federal de Catanduvas (PR). Hoje está na unidade de Porto Velho. VP é suspeito de estar por trás dos conflitos entre moradores e militares e da tentativa de invasão do tráfico ao Complexo do Alemão, em setembro.
O advogado nega que passe informações e ordens de Marcinho VP para traficantes de sua facção, o Comando Vermelho. "Só falo com ele sobre inquéritos, processos e informações de conhecidos dele", disse à Folha. Ele afirma visitar o cliente em Porto Velho a cada mês e meio.
De acordo com agentes penitenciários, durante as visitas em Catanduvas, Alberto Pereira suspeitava que suas conversas com o cliente estavam sendo gravadas.
Separados por um vidro, que impede qualquer contato, Pereira escrevia as respostas das perguntas feitas por Marcinho. Depois mostrava ao criminoso para confirmar a mensagem.
No bilhete apreendido, Marcinho pergunta a respeito do preso a quem a facção teria dado uma pistola nove milímetros para matar o rival Celsinho da Vila Vintém. Pereira afirma que o trecho ("Você lembra do preso do hospital penitenciário que levamos uma 9 para passar o Celsinho?") diz respeito a um processo ainda em curso, e que por isso não pode falar sobre ele.
O traficante também pergunta sobre a morte da amiga de infância identificada pelos policiais federais apenas como Claudinha. Segundo agentes federais, ela era o contato entre o Comando Vermelho e o PCC. Também levava dinheiro para a favela de Vila Norma, na Baixada Fluminense, onde Marcinho nasceu. Claudinha foi morta. Segundo as investigações, os autores do crime foram executados a mando de Marcinho VP.
Em outro trecho da carta, de acordo com a PF, o advogado diz ao traficante que "PH está com 20 canetas, comprou 12 e vai chegar dez pelo Tubarão e Cabeça". Segundo a PF, Tubarão e Cabeça são traficantes de armas.
Em seu depoimento na PF, o advogado confirma que "canetas" são fuzis. Depois da confirmação, diz que soube disso através de matérias de jornais.
A juíza Denise Vaccari, da 19ª Vara Criminal, pediu que Pereira apresente suas alegações. Ela também quer que a PF aprofunde a investigação. Pereira responde ao processo em liberdade. Diz que durante as visitas em Catanduvas o traficante "queria saber tudo que saía com o nome dele nos jornais".
"Agora a gente nem entra com papel. Lá em Rondônia ganha-se papel e caneta. Na saída, os agentes pedem para mostrar a eles", afirma o advogado.
Marcinho cumpre pena de 36 anos pela morte de dois jovens no Alemão. As vítimas foram esquartejadas.