Seja qual for a decisão da Justiça, o futuro da Casa de Detenção de Vilhena mexe com o destino de muita gente. A pedido do Ministério Público, o juiz da Vara de Execuções Penais, Renato Bonifácio de Melo Dias estuda duas hipóteses para combater a superlotação do local: transferir apenados ou interditar o estabelecimento
Não apenas dos 317 presos, dos agentes penitenciários que os guardam, dos PMs que aparecem dia sim dia não para escoltar gente, dos advogados e funcionários etc.
As famílias dos presos estão muito apreensivas. Mães, esposas, filhas e irmãs são maioria nas manhãs de sexta-feira, único dia em que a visita é permitida no “cadeião”.
Entre elas, d. Alzemira, 48 anos que parece 60 no rosto vincado de tristeza: “Se mandarem meu menino pra outra cidade, só vou ver ele uma vez por mês, e quando der”.
Ela conta que seu filho já cumpriu dois de sete anos de pena. Entrou com 18, sairá com 25. Seus dois irmãos ficam de fora, enquanto a mãe some atrás da porta de ferro.
Do outro lado da travanca, pequenas peças de artesanato manual - esculturas, porta-retratos e até uma capa para botijão de gás, tudo feito de palitos de picolé grudados com cola, sem nenhuma ferramenta - revelam uma sensibilidade ainda não embotada pela tensão que quase se cheira no ar da cadeia.
Lorizete Almeida, 42 anos, é o nome do artista. “Cadeieiro velho”, sai em março, depois de cinco anos fechado por tráfico. O tempo aprimorou seu talento com as mãos e clareou-lhe a fala e o raciocínio: “O Estado tem a obrigação de fazer com que o sentenciado cumpra sua pena, pague o que deve para a sociedade sem ficar longe da família. É um direito legal. Se a cadeia for interditada e todos formos espalhados, o tumulto vai ser enorme. Todo “forasteiro” é mal recebido na outra cadeia, vai ocupar um espaço que já é pouco pra quem já está, imagine para quem chega”.
Uma dupla de PMs fortemente armados passa com um foragido recém-capturado e o agente Almir Veiber, 45 anos, oito de profissão, detalha as condições atuais da cadeia: “Cerca de 100 homens estão nas seis celas chamadas de regalia. Os outros duzentos e poucos ficam direto no fechado”. São os números da superlotação: em dez celas feitas para 100 homens, espremem-se 200.
Noite passada, ninguém dormiu: a água escorria das paredes e pingava do teto em todas elas. Não havia onde deitar. Quem dormiu, dormiu em pé, até que a fossa transbordou do ralo e cobriu os pés dos homens durante toda a madrugada com a lama imunda e fedorenta do esgoto.
Fim da visita.