DESPEDIDA AO MESTRE
Leandro Prazeres*
Eu poderia começar esse texto de muitas formas, mas encontrar uma ficou difícil. Difícil porque pela primeira vez em muito tempo, tenho que escrever sobre algo abstrato, algo sem forma, indefinível, mas ao mesmo tempo, forte, presente. Vou falar sobre o vazio que a morte do Luiz, o Luizão, deixou no meu coração, e certamente, no coração de muitas pessoas.
Conheci o Luiz quando eu tinha 13 anos e tinha acabado de retornar a Vilhena. Não era o fato de ser professor de matemática (matéria que eu odiava) ou o de ser diretor e dono da escola que me botava medo. Mas o tom da sua voz. Grave, quase gutural. Botava qualquer moleque atrevido no bolso. Mas sua autoridade não era exercida apenas com a gravidade de sua voz. Parece que ainda posso ouvir seu vozeirão ecoando pela sala de aula. Mas mesmo com a pinta de mandão, era difícil encontrar alguém que não sentisse por ele a maior das admirações.
Ele foi a pessoa certa na vida de muita gente. Foi o vencedor até mesmo das batalhas que ele não conseguiu vencer. E foi triste vê-lo e sentí-lo triste naquele que eu acho que foi um dos momentos mais tristes de sua vida: a perda de sua filha.
Mas ele nunca foi de se deixar abalar. Voltou com tudo, ainda que ele já não fosse mais o mesmo. Mesmo assim, ainda tinha o brilho no olhar, aquela vontade de fazer vencedores. O emblema da escola era um leão e nenhum outro animal poderia representar melhor o Luiz. Era um guerreiro. O guerreiro das mãos sem calo. Sim... ainda me lembro das inúmeras vezes em que ele exibiu sua mãos sem calos para mostrar que se podia vencer na vida usando apenas o cérebro.
Era um piadista, e quando o assunto era o seu querido Corinthians, ele conseguia fazer humor de si mesmo e de sua paixão.
O que fez do Luiz importante para mim? Essa é fácil, professor. Pode deixar que eu respondo. Aprendi que ao longo da vida, encontramos vários professores, mas muito poucos mestres. E ele foi um desses poucos mestres que passaram por minha vida. Mais que matemática, física ou química, que aliás, nunca aprendi (por pura incompetência minha), ele me ensinou que era preciso ter garra, vontade de vencer, sangue nos olhos e fibra para chegar onde queríamos. O fim de sua vida não será, sem dúvida alguma, o fim de seu legado. Seu legado e suas histórias ficarão para sempre no coração e na mente de centenas de pessoas. A morte do Luiz não é apenas uma perda para a Educação de Vilhena, ou mesmo de Rondônia. É uma perda afetiva incomensurável. De novo, o vazio toca o peito e engole as palavras. É difícil falar ou escrever sobre o que nos é realmente importante.
Costumo pensar que a vida é um grande emaranhado de histórias cujo final ninguém sabe ao certo. Para mim e para meu irmão, Leonardo, foi uma honra ter o Luiz em nossas vidas. Ele é um dos grandes responsáveis por gerações de homens e mulheres de bem que apostaram na Educação para ter uma vida melhor e fazer do Brasil um país melhor. Infelizmente, não conseguimos mudar o Brasil tão rápido quanto precisávamos e não conseguimos impedir que crimes como o que tiraram a vida do nosso professor acontecesse. Talvez, nem mesmo toda a mudança que precisamos seria suficiente para tal. Nesse momento, sobram dúvidas. Mas uma coisa é certa, Luiz era único.
À toda sua família e às centenas de “órfãos” afetivos que ele deixou, fica um vazio indescritível, tão grande, no entanto, quanto a certeza de que estivemos ao lado de uma pessoa iluminada.
* LEANDRO PRAZERES, 28 anos, é jornalista em Manaus (AM)