O professor Cledemar Jeferson Batista é conhecido por estar sempre engajado em algum projeto social. A inquietude de seu espírito contrasta com seu feitio acanhado. Aos 43 anos de idade – 27 dos quais morando em Vilhena – este paranaense de Cascavel preside a ONG (organização não-governamental) Grupo Beija-Flor que se insere na luta pelos direitos dos homossexuais.

Tramita no Senado o projeto que torna crime a homofobia [ódio contra homossexuais]. Para Jéferson, “só é homofóbico a pessoa que nunca foi de fato amado e também foi até o momento incapaz de amar”.

Mas a bandeira do ativista vilhenense não se atém a esta causa. Jéferson é defensor contumaz da cultura, notadamente do indigenismo e do patrimônio histórico. Ele explicita um tom de indignação sobre o abandono do museu Casa de Rondon: “Será que Vilhena é um município tão medíocre que é incapaz de cuidar de um patrimônio importante, no entanto simples como o Posto Telegráfico?”, questiona.

 Formado em Letras pela Unir (Universidade Federal de Rondônia), atua desde a década de 90 como educador no Estado e no Município, em ambos através de concurso público. Atualmente, é o coordenador da Sala de Leitura da Escola Machado de Assis, de manhã e de noite. No período da tarde, está à disposição da Secretaria Municipal de Esportes e Cultura, com a tarefa de contribuir, através da elaboração e proposição de projetos para estruturar o segmento. Tarefa árdua face à ausência absoluta, na história da pasta, de programas e projetos consistentes. Confira a entrevista:

 

- FOLHA: Tramita no Senado o Projeto de Lei que criminaliza a homofobia (ódio por homossexuais). Como você vê este debate? 

- JEFERSON: Fundamental. Só as discussões já foram capazes de romper com muitos paradigmas. O preconceito é fruto da falta de capacidade de compreensão, seja no processo da homofobia, como em qualquer outra forma de preconceito. A sociedade está sedenta para romper com a ignorância, no sentido de “não conhecer sobre”. É muito bacana quando percebemos que o radicalismo não está no segmento religioso, não está na família, está apenas na falta de conhecimento. A discussão sobre a homofobia já promoveu e promoverá uma sociedade mais humana, com seus erros e acertos, sem julgamentos e sem rótulos. O amor não escolhe sexo. Quando se centram relações homo afetivas, apenas ao ato sexual, não se consegue perceber o amor, por si só. Há pessoas que têm tanto sexo na cabeça que não percebem que há outras discussões mais importantes e necessárias: a falta de amor, por exemplo.

 

- FOLHA: Há uma resistência muito grande, sobretudo, da parte das igrejas quanto ao aspecto moral. Como você avalia a atitude de muitos líderes religiosos de baterem na tecla de que a homossexualidade é até mesmo uma doença passível de cura?  

- JEFERSON: O tempo se encarregará de dissipar todo ódio, toda ignorância. Importa é amar as pessoas, mesmo que elas pensem e ajam de forma distinta das nossas.  Só em 2008, no Brasil, aconteceram mais de 2000 assassinatos com motivações homofóbicas. Se for preciso lei para coibir o radicalismo, que haja. Lembro enojado das inúmeras piadas contra a etnia racial negra tão estimulada pela mídia e valorizada por pessoas racistas. Houve a necessidade da criação de leis para que começasse a haver uma mudança na postura das pessoas.

- FOLHA: A união civil entre pessoas do mesmo é outra faceta polêmica desta discussão. Você acredita que haverá um tempo que tal possibilidade seja vista como normalidade? 

- JEFERSON: Pouco importa. Qualquer pessoa pode buscar seus direitos, desde que se ampare judicialmente através de contratos ou outros mecanismos, se for o caso. No entanto, o amor, por si só, é maior que um contrato, um imóvel, o que vale mesmo é o respeito pelo sentimento do outro. Só realmente é homofóbico a pessoa que nunca foi de fato amado e também foi até o momento incapaz de amar.

- FOLHA: Como educador, qual a dificuldade de se lidar com os jovens em fase de descoberta da sua sexualidade? E aos pais: qual a orientação? 

- JEFERSON: O educador que realmente é educador não tem nenhuma dificuldade. Basta respeitar o indivíduo com todas as suas características. À escola, aos pais e aos educadores cabe a tarefa de proteger a criança, o jovem ou mesmo o adulto com ou sem conflito. A pior coisa que pode acontecer são as situações de bullying, seja contra magros, gordos, homossexuais, protestantes, umbandistas etc. Respeito às diferenças, cautela nos preceitos, olhar o outro considerando suas especificidades, afinal ninguém escolhe ser homossexual, ninguém conduz alguém à homossexualidade, trata-se de uma formação que diz respeito aquele ser e merece ser tratado com dignidade.

- FOLHA: Você pensa em se candidatar a algum cargo político?

- JEFERSON: Creio que eu não teria paciência para participar de cargos eletivos. No atual sistema, seria uma perda de tempo. Talvez com o tempo eu possa mudar minha atual visão. Meu maior desejo mesmo é ver a sociedade plena, justa, participativa, que houvesse transparência, ética, desenvolvimento humano e social.

- FOLHA: Como é que surgiu a ideia da ONG Beija-Flor?

- JEFERSON: Não surgiu de nenhuma ideia pré-concebida e, sim, de uma necessidade. O desenvolvimento do terceiro setor é uma demanda do mundo atual. A sociedade civil tem a obrigação de contribuir com as mudanças. Se não houver o controle social, o sistema governamental fica à mercê da visão apenas dos administradores, o que nem sempre coincidem com as reais necessidades da sociedade.

- FOLHA: Quais as bandeiras que você sustenta através da ONG?

- JEFERSON: O Grupo Beija-Flor: Direitos Humanos e Desenvolvimento Sócio-cultural não nos limita a segmento a ou b. Importa é promover mudanças que contemplem a qualidade de vida da população, independente de credo, raça, dor, condição social, gênero, orientação sexual e quaisquer tipos de discriminações, portanto não há bandeiras, e sim muito trabalho.

 - FOLHA: Desde bem jovem você é engajado. De um modo geral a juventude vilhenense é apática à política?

- JEFERSON: Meu espírito é inquieto, não consigo me adaptar. Sou considerado chato, mas onde estou tento cumprir da melhor maneira o meu papel, seja como filho, irmão, operário, amigo, membro da comunidade... Creio que ao jovem vilhenense só falta respaldo, incentivo, exemplos a serem seguidos. Eles são extremamente criativos e participativos, basta que lhes dêem oportunidades. Eu me surpreendo com muitos jovens que se destacam a partir de atividades simples, não vejo apatia quanto aos movimentos sociais por parte dos jovens e, sim, a ausência de políticas públicas, partidárias ou não, que promova a liberdade de atuação desses jovens.

- FOLHA: Recentemente, você esteve à frente da coordenação da Conferência Municipal de Cultura. O resultado das discussões foi satisfatório?

- JEFERSON: Na verdade, não me rotulo coordenador da Conferência. Tudo referente ao que aconteceu foi a partir da necessidade que fosse feito e alguém teria que conduzir esse processo Como operário da cultura, no período vespertino, foi o que eu fiz. Porém, absolutamente, todo o trâmite foi acompanhado e autorizado pelo secretário de Cultura. A conferência pode sim ser considerada um sucesso, as proposições levantadas, a partir das discussões dos eixos temáticos, foram sensacionais, se o município se esforçar para cumprir as propostas, a cultura poderá reagir, com o tempo.

-  FOLHA:  O que você pensa sobre o abandono da Casa de Rondon já há 13 anos?

- JEFERSON: Penso o que todo bom vilhenense pensa: lamentável, lamentável... O que mais me incomoda nesta história é que o município tenha ficado tanto tempo sem reparar uma telha, ou tratar uma madeira contra o ataque de cupins, por exemplo. É triste saber que apenas ficaram esperando por verba federal para cuidar do básico. É assustador saber que a reforma do início da década de 80 tenha sido financiada pelo extinto Banco do Acre (Banacre) e, depois, tenha caído no abandono. Será que Vilhena é um município tão medíocre que é incapaz de cuidar de um patrimônio importante, no entanto simples como o Posto Telegráfico?