Um mês antes do início da campanha eleitoral em Vilhena, o FOLHA DO SUL ON LINE enviou por e-mail um questionário ao padre Renato Caron, que era cotado par disputar a prefeitura, mas que acabou indo atuar numa missão humanitária no Haiti.
Respeitado em Vilhena, tanto pelo trabalho religioso quanto por sua militância política e social, o sacerdote demorou, mas respondeu as perguntas. Caron também fez revelações sobre o país caribenho e enviou fotos mostrando a rotina de dificuldades dos haitianos.
CONFIRA AS FOTOS E AS RESPOSTAS DO LÍDER RELIGIOSO VILHENENSE:
Caro Dimas.
Escrevo-lhe entre feliz pelo contato e envergonhado pela demora em responder-lhe. Não faltou vontade em fazê-lo muito antes de hoje, mas a comunicação aqui no Haiti padece tanto ou mais que outras áreas da falta de seriedade no trato com a coisa pública e no verdadeiro interesse e direito do cidadão. Aqui em Abacou, sul do Haiti, moramos num recôncavo, ou seja, praia na frente e morros bem altos atrás, justamente de onde vem (mas não chega!) o sinal da internet. O mesmo problema vale para o telefone celular. Então, a Internet até chegou aqui onde moro mas com sinal muito fraco e instável.
Também não há energia elétrica pública. Em nossa casa temos alguns painéis solares que nos garantem energia para a geladeira e algumas lâmpadas(super-chique já). Ligamos a bomba do poço uma vez por semana (temos água encanada em casa, outra ‘chiqueza, já que todo mundo tem que buscar água nas fontes e poços, e nas estradas a toda hora encontramos mulheres e crianças sobretudo, com galoes nas mãos e enormes baldes na cabeça) e o restante da parafernália eletrodoméstica a que estamos acostumados no Brasil foi completamente suprimida (TV, rádio, lavadora de roupas, ferro elétrico, etc, etc) Ah sim, temos uns ventiladores pequenos de baixo consumo e o resto, funciona a pilha ou outro tipo de baterias.
Lamento, portanto, como já disse, não ter lhe respondido antes mas o faço agora com o apreço e o respeito de sempre, sobretudo aproveitando o tempo em que por aqui, vivemos o recesso escolar e também do postinho de saúde da missão.
Tomei a liberdade de inverter a ordem das questõs já que as que se referem ao evento eleitoral de 2012 me parecem menos importantes ou mesmo desnecessárias neste momento. A missão é minha vida agora e sobre ela discorro com gosto, partilhando-a com você (e seus leitores, se for publicada) no sentido de infundir-lhes um pouco da alegria que ela me proporciona, em servir a Deus servindo os irmãos tão necessitados e pobres confiados ao nosso trabalho aqui no Haiti.
Igualmente, encaminho cópia da presente e oportuna entrevista a muitos amigos meus no Brasil,e mesmo familiares, apoiadores meus neste trabalho e sempre preocupados e interessados, a quem também devo notícias e muito mais, em reconhecimento pela força e incentivo que sempre me aportaram.
Como o senhor acompanha as notícias de Vilhena?
R. Mesmo que de acesso super-restrito e difícil (por razões que eu já declinei), é mais pela internet que nos chegam as notícias de Vilhena e do Brasil. Por telefone também sabemos alguma coisa e mais raramente, por alguma pessoa que nos visita (ou outro brasileiro que encontramos por aqui).
Se estivesse aqui, teria aceitado participar da eleição, como candidato?
R. Talvez tivesse. Mas ainda, depois muitas variáveis a serem analisadas, a decisão caberia em última instância aos meus superiores, os bispos.
Se tivesse que escolher um dos candidatos a prefeito neste pleito, quem seria? E por quê?
R. Existem muitas pessoas com grande capacidade administrativa na sociedade vilhenense. Quem dera pudessem colocar essa mesma capacidade a serviço da municipalidade sem as inter(incon)veniências político-partidárias que nem sempre representam legitimamente as aspirações dos cidadãos.
O Padre Adão (procure no site, através do mecanismo de buscas) de Cerejeiras, não quis ser candidato a prefeito, mesmo com chances reais de se eleger. O que o sr. acha da decisão?
R. Ele deve ter refletido bastante sobre isso, sobre a verdadeira política como uma outra maneira igualmente importante de ‘sacerdócio’ em favor do povo. Mas deve ter encontrado razões para declinar da candidatura, entre as quais pode estar a que mencionei acima (respeito pelas autoridades) e um amor muito grande pelo ministério sacerdotal que, certamente ficaria bastante limitado ou prejudicado pelas responsabilidades como candidato/eleito.
Em que partido o sr. se filiou com o aval do deputado Luizinho Goebel e pq fez isso?
R. Noutra ocasião, em 2011, quando ainda estava em Vilhena, já falei sobre o porquê da minha filiação, inclusive ressaltando que a política é uma grande e carente área de atuação autenticamente cristã. E que o próprio Jesus teria sido um excelente político no sentido melhor da palavra. Como todo cidadão brasileiro tenho esse direito. Ao passo que me cabe –e a cada cidadão- o dever, sobretudo como cristão, de se engajar inclusive politicamente para aplicar (bem!) essa poderosa ferramenta de construção e melhoramento da sociedade.
Vínhamos refletindo isso há tempo, com amigos, e com lideranças da igreja (membros de Conselhos, Pastoral Fé e Política, preparação do Grito dos Excluídos) O Dep.Luizinho Goebel acenava com a possibilidade que o Partido Verde representava de realizar isso, de implementar uma administração baseada nesses valores e daí a aproximação se fez quase que naturalmente.
Atuar nessa missão no Haiti foi decisão própria ou uma incumbência da igreja?
R. A Igreja convida para a missão e repercute o clamor dos mais empobrecidos. A oportunidade de trabalhar no Haiti surgiu com a vinda dos freis capuchinhos a Vilhena. Mas a decisão de vir foi uma decisão própria, ainda que submetida (e aceita) aos bispos diocesanos, tanto de Ji-Paraná(RO) quanto de Caçador(SC) aos quais eu estava ligado.
Quando chegou ao Haiti e o que tem feito aí?
R. Cheguei em abril. Em casa, com mais um padre brasileiro, outro haitiano, uma religiosa canadense e uma leiga brasileira buscamos criar as condiçoes melhores para cada um desenvolver bem seu trabalho, repartindo igualmente as responsabilidades sejam profissionais, religiosas, domésticas ou culinárias.
Num trabalho que já vem de alguns anos e intensificado depois do terremoto de 2010, a missão, além da área religiosa, coordena trabalhos principalmente na área da saúde (a construção de banheiros particulares e comunitários, obras de contenção e poços de água potável) e da educação (formação profissional –escola de informática-, um projeto de apadrinhamento de crianças –pgto. de despesas escolares-, construção de passarelas para acesso às escolas –qdo os rios enchem as crianças já não podem passar e ficam sem aula enquanto durar a cheia-)
Quando eu cheguei, a missão construía um posto de saúde e tentei ajudar em todo tipo de serviço que pude: carpintaria, pintura, ajardinamento, instalação elétrica e hidráulica, limpeza, carregamento, montagem, o que fosse... Uma vez inaugurado o postinho em setembro passado, com uma irmã canadense –enfermeira formada- à frente, temos visitado todas as escolas da região de abrangência da paróquia em uma campanha de saúde escolar.
Esta consiste em visita à escola para verificar pressão arterial, temperatura, peso, altura, desenvolvimento geral e outras doenças (inflamações, alergias,etc) de todos os alunos e professores, medicando os que precisam (apresentam febre ou algum sintoma visível, ferimentos, etc) e dando a todos um medicamento anti-parasita. Acompanho a equipe como carregador de material, pesador das crianças (colocar os mais pequenos na balança, tirar e colocar os calçados deles) anotador, e de lambuja, ajudo a verificar a temperatura e pressão arterial, a dar os remédios ou explicar como devem ser tomados. É um trabalho grande, afinal, temos 12 escolas na paróquia (mais de 1200 alunos) todas estremamente deficitárias em termos de estrutura, e em 8 delas o acesso é somente a pé. Sem falar que falta mesa pro material, lugar adequado pra medir e pesar, às vezes a sombra é pouca...
Fazer o quê? Aqui é assim mesmo... tem que se virar...improvisar...ter um plano B e C no caso de o A não dar certo e por aí vai. Como num dia desses em que quase não chegamos numa escola primária (até 5ª série) porque o rio estava cheio (água pra cima do meu joelho) e no barranco de areia a caminhonete (uma S10) podia atolar. Mas arriscamos e deu certo. Afinal, não poderíamos decepcionar as crianças que nos esperavam lá. Eram mais de 100!! Tocamos direto das 8 e meia até à uma e meia da tarde. A escola funciona num templo evangélico com vista pro mar, um privilégio. Mas só a paisagem... porque 5 turmas dentro da igreja, uma virada pra cada parede e os professores tentando ensinar, não é brincadeira não... ainda bem que as crianças são comportadas (e não se comporte pra ver!!!) porque tenho certeza que no Brasil isso seria impossível. A título de informação geral: mais de 80% das crianças apresentam alguma coisa por tratar: micoses, inflamações, feridas, `raladas`, febre, verminose, desnutrição,... já tivemos de tudo, inclusive fimose, dor-de-barriga, malária, conjuntivite, gripe, mordida de animal... os pequenos já tem um monte de cicatrizes feias decorrentes de ferimentos e infecçoes, muitos têm umbigos enormes (cortam muito comprido ou não cuidam direito, sei lá), dentes quebrados, 95% das meias furadas (tem que tirar o calçado pra pesar e medir) ou grandes demais que tem que ‘dar volta’ no pé, uniformes surradinhos e costurados de anos anteriores (ou de irmãos anteriores!)...
Mas é uma batalha das muitas que aqui no Haiti se trava pela educação e pela dignidade dessa gente.
E é por isso que estamos aqui. Porque Jesus disse que veio ``para que TODOS tenha vida e vida em abundância``.
Que mensagem o sr. gostaria de deixar para os amigos e fiéis de Vilhena?
R. Primeiramente, agradeço a todos indistintamente, a todo o povo de Vilhena e aos que, como eu, a adotaram (ou foram adotados por ela!) como sua, mesmo que por pouco tempo, pelo carinho da amizade e da oração fraterna, que constituem com a Graça de Deus, o escudo e o alívio na batalha que -todos enfrentamos, é certo, mas- (de modo especial no calor das situações mais difíceis e até de risco à própria vida), desafia os missionários no exterior, a cada dia.
Em seguida, desejo a todos um Santo e feliz Natal com o Senhor, em sua generosidade, nos presenteando de novo no ano vindouro, com muito mais do que soubemos pedir.
Finalmente, Caro Dimas, reitero agradecimentos pelo contato e o saúdo fraternalmente no Espírito do Natal.
Saudação extensiva a todos aí na FOLHA.
Grande abraço.
PS: Seguem algumas fotos em anexo.