Francisco Humberto Willers olhava o computador da filha há alguns dias quando encontrou um vídeo que ajudará a confortar seu Dia dos Pais. Pai de Allana, 18 anos, uma das 242 vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, deparou com imagens gravadas em 2011, em que a jovem o homenageava. Bem-humorada, ela mostra cartazes em que ressalta as qualidades do pai (veja o vídeo ao abaixo). Apesar de não ser a primeira vez que assiste às imagens, a descoberta foi como um tesouro para amenizar a saudade de Francisco.
“Esse vídeo vai me confortar. Vou ver muitas vezes no domingo”, conta Francisco ao G1. Pai também de Francisco Júnior, de 15 anos, atualmente dedica a vida para o filho mais novo, que está no primeiro ano do ensino médio. Juntos, tentam amenizar a dor da perda fazendo programas diferentes. “Ele gosta de andar de jipe, de bicicleta”, conta, sobre as aventuras que aprontam lado a lado.
Neste domingo (11), a família pretende viajar os 170 km que separam Ijuí, no Noroeste, de Santa Maria, na Região Central, e participar de uma confraternização da Associação de Vítimas da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). Um churrasco está marcado e promete ser repleto de homenagens organizadas pelas mães. A expectativa é que 400 pessoas participem.
Nas horas vagas, Francisco conta que o filho costuma ir à empresa da família, uma locadora de veículos, embora ainda não tenha certeza do que quer estudar na faculdade. Já Allana cursava jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria e morava na cidade havia um ano. “Prestei vestibular com ela na época. Ela me pediu e foi bem legal. Eu estudava direito”, diz o pai, que é proprietário de uma empresa.
Por conta de algumas disciplinas como direito penal, em que os assuntos se tornaram mais difíceis de ser encarados depois da tragédia, Francisco trancou o curso na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí). “Vou voltar neste semestre”, revela.
Apesar do luto, Francisco não sente a paternidade abalada, mesmo que o filho se mostre o mais forte dentro de casa. “Conversei com ele esses dias, o vi chorando poucas vezes. Acho que quer nos preservar”, elogia a força de Júnior.
Embora já tenham se passado seis meses desde a triste madrugada de 27 de janeiro, o quarto de Allana ainda está intacto. Francisco conta com o tempo para mexer nos pertences da jovem. “O difícil é ficar em casa por causa do quarto dela. No início a gente viajava bastante, saía no final de semana. Mas a gente tem de encarar, não tem opção”.
O pai era apaixonado pela filha. "Posso te dizer que ela era uma filha exemplar, nunca nos causou problema", relembra. Engajada com diversos projetos, tanto na faculdade, quanto na cidade natal, Allana sonhava em ser jornalista de moda e morar na França. "Como queria ir para o exterior passou a dar aula de inglês como voluntária, pois falava fluente e isso a ajudaria. Para nós ela será uma eterna jornalista, que viveu intensamente todos os dias de sua vida".
Com as estruturas abaladas e um vazio que, talvez, nunca seja preenchido, a percepção do valor da família mudou para Francisco. No dia a dia, o homem tenta estar mais próximo da mulher, Liane, além do filho. “Grande parte da minha razão de viver é estar lutando por ele. Deve ser muito difícil para quem teve só um filho e perdeu”, completa.
Fonte:
G1
Publicado em 07 de Agosto de 2013, às 12:58