Marilene Mendonça conta que filho se achava um herói na luta pela redução do valor da passagem de ônibus: “Ele ia a todas as passeatas”. O telefonema não durou mais do que três minutos, mas foi suficiente para Caio Silva de Souza, de 22 anos, contar à mãe, Marilene Mendonça, de 49 anos, que a morte do cinegrafista Santiago Andrade durante a manifestação da última quinta-feira não passou de um acidente. Em sua casa no município de Nilópolis, na Baixada Fluminense, Marilene contou ao Globo que ele confessou ter segurado o rojão que atingiu a vítima — mas que negou ter feito o lançamento do artefato. Desesperada, a mãe, que disse ter reconhecido o filho nas imagens de TV, contou que não foi procurada por nenhum político e que o filho só não se entregou à polícia porque nenhum advogado ofereceu ajuda jurídica à família.
Ele me disse: “Mãe, foi um acidente. A gente só usa a bomba para fazer barulho e assustar a polícia. Nunca tive a intenção de jogar em ninguém”. Meu filho sempre me avisa quando vai nas passeatas, porque quer ajudar a baixar o preço das passagens de ônibus. Ele usa ônibus para ir ao trabalho. Como a passagem diminuiu da outra vez, ele se achou um herói junto com os outros. Ele se sente o defensor dos pobres. Eu pedia para ele não ir, mas ele não me ouvia — contou Marilene, lembrando que o filho estava chorando.
Há cerca de um ano, Caio, que é filho único de pais separados, deixou de viver com Marilene, que mora de favor numa casa humilde de parentes em Nilópolis. Segundo a mãe, ele dormia com ela no sofá da sala. Marilene conta que não pode trabalhar, pois cuida do pai que é esquizofrênico. Com a aposentadoria do pai, ela passou a ajudar o filho pagando o aluguel de R$ 450 de um quitinete próximo à estação de trens de Olinda, para que ele usasse só uma condução para chegar ao trabalho. O acusado estudou até a oitava série em colégios públicos da região. Atualmente ele trabalha como auxiliar de serviços gerais de uma empresa terceirizada que presta serviços no Hospital Municipal Rocha Faria, em Campo Grande.
Segundo Marilene, o filho lhe contava que os encontros eram marcados pela Internet e, como ele não tem computador, Caio utiliza o próprio celular para acessar o Facebook para confirmar sua presença nas manifestações.
— Não tem movimento político por trás do meu filho. Se tivesse alguém apoiando ele, não estaríamos precisando de um advogado para defendê-lo. Ele foi a todas passeatas, por causa do aumento das passagens de ônibus. Caio me conta que esconde o rosto por causa da polícia e para não reconhecerem ele no serviço. Agora nem sei como vai ficar, pois ele trabalhava como temporário. Acho que eles (empregadores) não vão ficar mais com ele lá. Ele ganha um salário mínimo, mas faz falta — lamentou Marilene.