Alcoólatras crônicos e usuários de drogas ilícitas, que se identificavam como "sem solução", afirmam terem abandonado décadas de vício com o chá ayahuasca, conhecido como Daime.
O tratamento com o chá não é divulgado publicamente. As recomendações correm de boca em boca só entre os membros de grupos religiosos que usam a bebida, como o Santo Daime e a União do Vegetal, além de dissidentes. Médicos e cientistas ainda estudam os efeitos da bebida para saber a causa da suposta eficácia contra o vício.
Dois ex-dependentes afirmaram à reportagem que tomaram conhecimento do chá por indicação de psiquiatras que frequentavam os rituais (para entrar nas seitas, o novato geralmente é apresentado por um membro).
Marcelo de Campos Marcello, 38, de Sorocaba, membro da igreja Céu Sagrado há sete anos, afirma que chegou a fumar 380 pedras de crack em menos de uma semana.
"Me internei numa clínica por seis meses. Não resolveu. Clínica só serve para dar tranquilidade aos familiares." Ele conta que soube do chá por meio de seu psiquiatra. "Naquela época, achava que era uma outra droga, mas é um remédio. Por mais vontade que você tenha de fumar a droga, você não consegue mais usar."
O segurança Juarez Andrade, 57, conta que esvaziava garrafas de vodca e de uísque diariamente.
Ele acredita que a ayahuasca o ajudou a entender os próprios problemas. "Frequentei o Alcoólicos Anônimos, mas não gostei. Lá você desabafa e ouve o desabafo dos outros. Aqui você encontra sozinho formas de lidar com o vício."
EM VILHENA – A denominação espírita União do Vegetal (UDV) possui um templo em Vilhena e conta com seguidores de várias classes sociais. Discreta, a entidade não divulga seus rituais e nem se pronuncia sobre eventuais poderes terapêuticos do chá que oferece aos fiéis. A instituição serve, durante os cultos, uma beberagem que resulta da mistura entre o cipó Mariri e a folha chacrona, ambos encontrados na região. Quem já tomou a bebida diz que ela muda a percepção psíquica, mas não há relatos de dependência criada pelo consumo das duas plantas. Como também não se sabe se há, entre os freqüentadores locais, algum que tenha buscado na religião alguma forma de se livrar da dependência química.