A campainha é tocada na Casa da Cidadania. O guarda vem e para em frente ao olho mágico do portão. Após olhar para os dois lados da rua, o homem deixa a reportagem da FOLHA entrar na instituição que foi palco de um assassinato em meados de outubro. Com dezenove internos com idade entre 15 e 17 anos, a maioria envolvida com entorpecentes, o recinto se propõe a corrigir e recuperar socialmente menores infratores do sexo masculino. No entanto, o diretor do Centro Sócio-Educativo acredita que apenas 10% deles deixará a marginalidade.
Distribuídos em seis celas, os adolescentes dormem em colchões sobre o chão, sendo supervisionados por 16 funcionários. De acordo com a direção da instituição, as beliches de concreto foram evitadas para que os garotos não arrancassem as armações de ferro de seu interior e as usassem em crimes dentro das celas.
Nas refeições há comida de qualidade, produzida pela mesma empresa que abastece a Casa de Detenção. Campo de futebol de areia, fábrica de sabonete e sala de aula são os outros ambientes disponíveis aos reclusos. Um laboratório de informática já foi construído e espera apenas receber os computadores. “O prédio, mantido pelo Estado, passa por reformas e, em breve, deverá apresentar melhorias no piso, na ventilação, na pintura e na higiene”, assegura a direção da entidade.
Para cabo da Polícia Militar e diretor da Casa da Cidadania, Adjailson Cunha, poucos internos se interessam pela ajuda oferecida pela instituição. “A maioria daqui já se envolveu com toda sorte de drogas. Muitos têm pai ou irmão no outro lado do muro [no presídio]. Por isso a dedicação nas aulas, o bom comportamento e a vontade de mudar, requisitos básicos para considerarmos um jovem recuperado, são vistos somente na minoria deles”, revela. Conforme informou o diretor, dos 19 internos, somente três expressam desejo em sair do mundo do crime. “Ainda assim não se pode ter certeza se estes vão lograr êxito na nova vida”, diz Cunha.
Uma parceria com Associação Trindade Santa permite que os jovens dependentes químicos assistam a cultos e participem de encontros religiosos. Aqueles que demonstram bom comportamento são transferidos para a associação. De acordo com Cunha, essa análise é necessária porque eles vão para a instituição em último caso, quando já deixaram de pagar as penas alternativas.
A tarefa de recuperar e proteger os menores infratores não das mais simples. O diretor diz que alguns são agressivos e que as brigas surgem por qualquer pretexto, como a posse de um sabonete, pedaço de papel higiênico ou pacote de biscoitos. “É quase impossível saber quem tem inimizade com quem para colocá-los em celas separadas”, expõe Cunha.
Numa desavença por um desses motivos banais, em 14 de outubro, o jovem Adalberto Henrique Cardoso foi assassinado, aos 18 anos de idade, dentro da Casa da Cidadania. Foi o terceiro caso de crime com morte entre os adolescentes nas dependências da instituição desde sua fundação, em setembro de 2002. Na parede da sala de aula, porém, um cartaz exibe as notas dos estudos do assassino como as melhores da classe.
A escola é uma unidade de extensão do Ceeja (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos) e funciona no sistema de supletivo. De segunda à sexta-feira os garotos, todos alunos do ensino fundamental, aprendem desde o alfabeto às equações de matemática. Os lápis são cortados ao meio e têm pontas redondas, ao passo que as canetas não possuem o invólucro de plástico duro. Tudo para que não sejam utilizados como armas.
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COM A PALAVRA - Professor estadual há 15 anos, o tutor José Moscardo Moreira (FOTO 2), especialista em psicopedagogia, é o responsável pela educação dos internos há um ano e meio. “Só uns 25% dos alunos se dedica aos livros. Mas, pelo fato de que com as aulas eles podem conversar com alguém diferente e ver do lado de fora da janela, demonstram gostar da escola. É claro que o ambiente de prisão os desanima um pouco. Mas minha relação com os menores não é afetada. Tanto que se encorajam a falar sobre suas histórias de vida para mim; e esse é o momento que os ouço com atenção. Na aula de religião, por exemplo, vejo que ficam muito interessados, sempre procurando respostas para seus problemas.”